quinta-feira, 8 de agosto de 2013

[Pensamentos] ... fardos e cargas pesadas



As nossas vidas têm um limte de espaço. É como um disco de computador, onde vão sendo armazenados arquivos. Nós vamos armazenando experiências, sentimentos e memórias.
No computador, quando deixamos de ter espaço, há que apagar o que não nos faz falta ou o que, por alguma razão já não faz sentido guardar e que só está a ocupar espaço.
Assim acontece com as nossas vidas, onde se não nos libertarmos dos fardos ou de velhos sentimentos, chegaremos a uma altura em que estaremos demasiado pesados para continuar a caminhar.
Mas como podemos nós libertar-nos das coisas que nos marcaram se elas se entranham em nós de tal modo que é difícil esquecê-las? Como esquecer as nossas memórias? Como esquecer aquelas experiências marcantes e traumatizantes das nossas vidas?
Simples. Transformando-as. Transmutando-as em algo de bom. Porque as coisas boas são leves e a nossa caminhada será mais simples.
Como fazê-lo, então?
Processar bem o que aconteceu e que bloqueia a nossa energia, impedindo-nos de avançar. Pensar na razão pela qual aconteceu algo, encontrar uma razão, o propósito para tal nas nossas vidas. Perceber o que aprendemos com isso, a forma como nos transformou e as mudanças que daí advieram.
"Libertar o velho para deixar entrar o novo" foi um dos ensinamentos mais importantes que já tive. Quando aprendi a fazê-lo, a minha realidade transformou-se em algo muito melhor, porque me libertei das angústias, dos medos, das culpas e dos ressentimentos que guardava sem saber e passei a abraçar tudo e todos os que se encontram à minha volta no momento Presente.
Foquei-me no que quero da vida em vez de pensar no que não quero. Foquei-me em amar tudo e todos de forma incondicional, porque, quando se abre o coração é isso que acontece. Passei a dar (e a gostar de dar) muito mais do que a receber, sem pensar muito no assunto, porque a Gratidão é algo que eu sinto e não algo que espero que sintam por mim.
Ainda assim, tornei-me muito mais rica, porque quanto mais dou, mais recebo de volta. E a minha caminhada tornou-se tão leve que tenho dias que parece que caminho sobre as nuvens...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

[Pensamentos] ... da vida e dos motores de arranque



Quantas vezes damos por nós a admirar os outros? O que fazem, como são, aquilo que vestem...
O que nos faz querer ser como as outras pessoas? Ter as suas vidas? Admirar as coisas que têm?
Pessoalmente, para mim não faz sentido querer algo que é de outra pessoa, quando há tantas coisas que a minha vida me proporciona, quando há tantas coisas para fazer que me preenchem e realizam. Quando tenho uma essência tão grande e que brilha tão alto e que me permite ser quem eu quiser!
Sei, no entanto, o que é sentir essa espécie de admiração. Também eu, durante anos caminhei com a cabeça enterrada na areia, vivendo os sonhos dos outros e ansiando por um amanhã que teimava em não chegar.
Hoje sei que de nada adiantou perder o meu tempo a semtir-me assim, mas a experiência permitiu-me perceber muitas coisas, entre elas que o Presente é bem mais importante e precioso do que os anseios pelo Futuro.
Ao deixar de sonhar c
om algo que não fazia parte da minha realidade, consegui perceber que tinha que me mexer se queria fazer aquele futuro acontecer. Tinha que mudar a minha postura perante a vida! Tinha que acabar com a inércia e transformar-me num motor de arranque. Tinha que Ser a própria vida...
Mudar é assustador. Dá-nos aquele frio na barriga, aquela adrnalina que nos seca a boca e nos faz tremer. Mas depois é compensador, especialmente quando alcançamos os nossos objectivos e passamos a não querer permanecer parados, ficar no mesmo lugar. Passamos a querer caminhar ao sabor do vento e a sentir a liberdade que essa experiência nos dá- Passamos a querer saborear tudo.
Por isso, ficarei feliz se as minhas palavras servirem hoje de inspiração a alguém- Não, não quero que me idolatrem! Não quero que queiram ser como eu ou que admirem a minha vida. Quero apenas que vejam em mim o motor de arranque das suas próprias vidas. Que percebam que mudar é possível e fazer mais e melhor também, através do meu exemplo. O que fazem e como o fazem é absolutamente indiferente, desde que sejam fiéis a si próprios.
Quero que vejam em mim o exemplo em como é possível caminhar com a cabeça nas nuvens e os pés assentes na terra, em direcção ao futuro com que sonhámos. Umas vezes caminho mais depressa, outras mais devagar, mas o que interessa é dar o primeiro passo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Abraça-me



Vem. Abraça-me. Sente-me. Vê que sou real.
De que me serve o que sinto se não posso partilhá-lo contigo?
Todos os meus anseios, as minhas angústias passarão quando chegares e pousares a tua mão sobre o meu coração. Quando puderes sentir que te quero como tu me queres a mim.
Então o sol irá levantar-se de novo no horizonte, trazendo consigo um novo dia.
Juntos, seremos uma só alma dividida em dois corpos.
Vem. Abraça-me. Sente-me. 
Dir-te-ei com todas as letras tudo o que tenho guardado no meu peito. Receberás tudo o que tenho para te dar. Sentirás a minha alegria por finalmente teres encontrado o teu caminho até mim.
Vem. Dá-me a mão.
Juntos iremos em busca de novos caminhos, mas nada buscando porque enquanto estiver contigo terei tudo o que é preciso. E então terei chegado a casa.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Comportamentos e atitudes



Por vezes faço um exercício mental: sento-me dentro da minha redoma protectora e observo a realidade à minha volta, suficientemente afastada para não lhe tocar.
Quantas vezes vejo as fachadas a ruirem na escuridão da noite, quando pensam que ninguém está a ver? Quantas máscaras se perdem no reino da solidão?
E quantas vezes, assim que o sol nasce, se tapam as rachas e as armaduras e se começa tudo de novo?
O ser humano é assim, capaz de se esconder atrás de uma muralha de pedra para que não o consigam realmente ver...
Mas o ser humano é também capaz de tudo. De superar tudo.
Então por que razão não é capaz de ser honesto? De enfrentar a sua própria miséria? A causa da sua dor?
Muitas vezes, esgravatar na nossa própria infelicidade dói. Mas é quando se bate no fundo que os pés tomam balanço e nos transportam de novo para cima, trazendo-nos à tona. É quando enfrentamos a vida de frente que ela acontece. É quando nos permitmos sentir, que compreendemos a importância de um olhar, de um toque ou de uma palavra amiga.
Não somos seres solitários. O ser humano foi feito para interagir, para socializar. Só assim a troca contínua de experiências nos conduz à aprendizagem e, consequentemente, à sabedoria.
Mas isto também nos traz responsabilidade, pois sabemos que as nossas acções - que a nossa atitude - pode mudar a vida de alguém.
É por isso que para mim cada vez mais se torna importante não deixar nada por dizer, nem nada por fazer, nenhum gesto por tomar.
Se gosto, é gratificante dar um elogio. Se não gosto, é honesto e libertador dizer a verdade com amor no coração.
Ser-se honesto e frontal não implica ser grosseiro. Implica apenas abrirmos o coração e pedirmos que respeitem as nossas diferenças.
É quando enfrentamos os nossos medos - as nossas fraquezas - e entendemos qual a nossa verdade, que alcançamos aquela libertação que nos dá asas para voar.
E a liberdade é o maior bem que se pode ter, porque é ela que nos permite sermos unos com os outros, sem deixarmos de ser nós próprios.

Esta é a minha reflexão para esta noite.
Sejamos felizes :)
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Sei que estás aí

Sei que estás aí algures. É só o que sei. Já que, mesmo após ter pegado nesta caneta e de estar a escrever neste exacto momento, ainda continuo sem saber o que mais dizer.
Só sei que estás aí. Quem és, onde estás, como és, isso para mim é uma incógnita.
Inevitavelmente serás uma outra parte de mim, como se a tua alma fosse o meu reflexo no espelho e, ainda assim, a imagem não me pertença.
Provavelmente já nos teremos cruzado no mundo dos sonhos. Já vi como é o teu olhar e senti o toque da tua pele. Talvez por isso mesmo sinta tanto a tua falta, como se a ausência dos teus beijos me desfizesse uma parte dos meus sentidos.
Eu sei que estás aí. Provavelmente nunca lerás as palavras que te escrevo, ausente numa outra realidade, num outro tempo, preso noutros olhares, perdido no outro lado do oceano da vida.
Ainda assim, escrevo estas palavras porque sei que estás aí.
Quero sair pelo mundo, ausentar-me do que me aprisiona, das grilhetas do comum e das prisões das mentalidades que me intoxicam. Quero sair à tua procura, voltar a ver esse teu olhar, sentir os teus dedos na minha face, relembrar-me das suaves carícias que me fizeste no rosto, saborear-te de novo num eterno beijo apaixonado.
Eu sei que estás aí. Talvez um dia te encontre. Quem sabe se, nesse dia, também me encontro a mim...

sábado, 20 de julho de 2013

[Devaneios_Pendulares#1] Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal...


O pensamento que me surgiu durante a viagem de hoje:

Desde tempos imemoriais que as pessoas se instalam ao longo dos cursos de água. Os rios e os mares sempre foram um forte ponto de atracção para a Humanidade. 
O facto é que me lembro de ter lido isto algures por aí, mas também sobre mim o longo espelho azul exerce o seu magnetismo.
Não há nada mais compensador do que sentir a brisa com cheiro a maresia entrando-me pelas narinas e brincando com os meus cabelos e perdem-se-me os pensamentos enquanto tento distinguir o que está para além do horizonte.
Agora mesmo, sentada no barco e navegando pelo rio, os pensamentos fogem-me para o mar de vidas para além da minha, que se entrelaçam umas nas outras como uma fina teia.
O Universo tem uma maneira curiosa e particular de nos pregar partidas e de nos transmitir todos os seus conhecimentos, a sua Sabedoria.
Ao ver o mar de gente que me rodeia não consigo deixar de me perguntar se estarão conscientes. Se saberão da magnitude de que fazem parte. Hoje em dia já há muita gente a despertar para o verdadeiro sentido da vida, mas ainda nem todos reuniram coragem para lhe fazer frente, porque enfrentar a verdade muitas vezes dói.
Os semblantes sombrios dizem-me sem necessidade de palavras, todas as angústias que lhes corroem as almas. Vivem no medo, do medo e para o medo, que é o pior inimigo que podem ter. Os olhares carregados mostram-me as lágrimas tantas vezes derramadas e, neste momento, o meu coração sangra, amando-os e sentindo compaixão pela sua condição. Porque também eu um dia fui assim. Vivi cheia de medo, fechada numa concha com receio de que me pudessem ver.
Mas foi no sofrimento que me reencontrei, que consegui acender a faísca do que fora um dia e jamais pensei poder voltar a ser. O sopro da brisa que me move ateou a pequena faísca e transformou-a numa grande fogueira, que arde num fogo perpétuo. Este, lentamente queimou a concha onde me escondia e as cordas que me aprisionavam, trazendo-me a libertação.
Porém, o fogo interior não podia arder em demasia para que os que me rodeiam não fossem queimados. Também neste ardor o Equilíbrio é fundamental.
A minha mente vagueia de novo para as alturas em me sentava na areia da praia, ouvindo o rugido das ondas que me embalavam e me enraízava na terra para que as sementes que plantara germinassem fortes e crescessem então, moldando-se ao sabor do vento, numa dança enamorada mas sem nunca quebrar. Ainda hoje consigo sentir a àgua nos meus pés, arrefecendo-me e alimentando-me ao mesmo tempo, banhando-me de sabedoria e lavando-me a alma.
É um sentimento libertador, este de saber que estou viva e que vivo - que a minha alma vive - dentro das mais pequenas coisas.
Quando olho para o mar de gente à minha volta e lhes vejo o sofrimento, percebo-lhes ali também uma parte de mim. Por isso sorrio-lhes, tentando aquecer-lhes a alma com esta chama que me vem de dentro, tentando dizer-lhes que no final ficará tudo bem.
Não tenho mais nada para lhes dizer e não tenho mais nada para lhes dar. Os recursos terão que buscá-los dentro de si mesmos. A dança da vida os fará ficarem mais sábios. Mas o sorriso, o Amor com que os contemplo - olhos nos olhos - isso é o de que mais precioso tenho. E, no final das contas, é a maior riqueza que posso partilhar.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Plantando sementes se criam grandes raízes...


A Felicidade é algo que vem de dentro. Sente-se. Transborda. Irradia e contagia o mundo e os outros à nossa volta. 

É como se fosse a raíz, o que nos sustenta ao chão para que possamos andar ao mesmo tempo com os pés na terra e a cabeça nas nuvens.

É algo que vamos descobrindo ao longo do nosso próprio caminho, porque não vem nos livros - mesmo quando as histórias têm finais felizes.

Não há transcedência maior e mais completa do que a de sermos felizes. Porque sabemos então que nos reencontrámos com a nossa própria essência. Que somos únicos e estamos completos. Que nós e os outros somos um só.

Este é o meu pensamento para hoje.
Sejamos felizes :)

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Todos os caminhos vão dar à .......... Felicidade :)

A Felicidade é algo de diferente para cada um de nós e escolhe os mais diversos caminhos.

É aí que reside a beleza em que se torna a dança da vida: na aceitação da diferença dos outros, sem julgamentos e sem invejas.

Muitas vezes o novo caminho é desbravado às custas de muito esforço e dedicação, remando contra as mentalidades e conceitos pré-concebidos.

Acreditar que é possível faz toda a diferença. Deixar o velho para trás, desapegar-mo-nos do passado é essencial. Para que, dos novos passos que damos em frente, se construa um futuro bem mais risonho.

Encontra o que te apaixona e te faz feliz. Vais ver que faz toda a diferença!

Este é o meu pensamento de hoje.
Sejam felizes...seja lá qual for a vossa escolha :)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Vazio


Procuro por ti em cada gesto que faço.
Imagino-te aqui, bem perto, ao alcance da minha mão.
É como se estivesses ali, naquele espaço vazio e, ainda assim eu não te conseguisse tocar.
Beijo-te em cada palavra que sussurro ao teu ouvido.
São palavras de amor, aquelas que saem directamente do meu coração.
Estão-me gravadas na Alma e insistem em sair, ainda que não me consigas escutar.
Os beijos e as palavras perdem-se no ar. Espalham-se por este universo que habita em nós, e envolvem-te por completo como suaves carícias.
Fazes-me falta.
Sem ti, nada é inteiro, nada é completo, nada sou eu. Eu não sou nada.
Será que me ouves nesse teu universo paralelo ou será que sou eu que não te consigo ouvir?
Será que também chamas por mim e me alcanças nos sonhos, mesmo não sabendo quem sou?
Vem e banha-me nesse mar azul com que me olhas. Envolver-te-ei com os meus braços num eterno enlace que não te voltarei a deixar escapar.
Por ti perderei o medo de voar bem alto e, juntos, conquistaremos as estrelas.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Crise de inspiração :(


Todos os dias a realidade me inspira. A vida é uma fonte de informação inesgotável para quem tem imaginação fértil. Geralmente consigo arranjar facilmente um enredo e fazer "o filme completo".
Mas desde há uns tempos para cá que parece que o balão de oxigénio se esvaziou. A imagem mental acerca da escrita está vazia. Completamente oca.
Talvez esteja apenas "fechada para balanço". A definir o que quero fazer a seguir com este passatempo de que tanto gosto. Talvez me esteja a definir a mim própria como escritora, a tentar perceber em que categoria me enquadro e quais as minhas verdadeiras potencialidades.
O que sei é que não me sai nada de jeito. Aliás, não me sai nada e ponto final.
Assim sendo, até que esta "rolha mental" termine, dificilmente devo conseguir publicar alguma coisa com o mínimo de qualidade. Isto assumindo que alguma vez o terei feito :)
Vou tentar continuar a dinamizar o espaço do blog. Quem sabe se de um momento para o outro as ideias não começam a jorrar como antigamente?
Espero bem que sim...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Tudo vem no tempo certo


Com o passar dos anos aprendi a ser paciente. A gozar a viagem sem ansiar apenas pelo final. A desfrutar de cada momento sem mergulhar em recordações do passado e projecções fantasiosas acerca de um futuro perfeito.

A grande aprendizagem é perceber que nada é como nós pensamos que vai ser. Por isso, há que criar grandes sonhos, mas poucas expectativas. Porque uma coisa é sonhar e querer muito do fundo da Alma. Outra coisa é querer dizer ao Universo como obtê-la.

Onde fica a aprendizagem? O prazer da viagem? A satisfação de alcançar o objectivo e sentirmo-nos em paz porque somos pessoas melhores do que no princípio?

Nada na vida deve (e pode) ser apressado. Cada um de nós faz parte de algo maior e tem que aceitá-lo e, pleno. A vida tudo nos traz na hora certa.

E para quem não está contente com o rumo da vida que tem e sonha com outra realidade, então basta arregaçar as mangas e começar a mudar a sua realidade. Pequenos passos, pequenas mudanças. E, a pouco e pouco, conseguirá percorrer o mundo.

Esta é a minha reflexão de hoje, já com muito sono e pouca coerência no discurso. Sejam felizes.

Namasté :)

A liberdade de amar

Porque amar (algo ou alguém) é também aceitar. Quando a aceitação é plena, não há necessidade de posse, basta estarmos presentes que a magia acontece.
O amor é assim mesmo, livre (porque podemos amar quem e o que quisermos) e libertador (porque desata nós e abre caminhos).

Sejamos felizes ♥

terça-feira, 19 de março de 2013

E se um dia...



E se algum dia eu não disser que te amo, procura-me bem dentro da tua alma.
Serei aquela cuja presença se fará sentir, mesmo quando não estou lá. Serei aquela que te levará à loucura e ao desespero, mas que também te fará sonhar.
Aquela que te pedirá perdão quando achar que errou e que derramará lágrimas de tristeza por todas as injustiças do mundo.
Comigo conhecerás o desequilíbrio e a loucura, a calma e o refúgio. Viverás emoções intensas que te levarão ao limite. Entrarei de mansinho e esconder-me-ei no teu coração.
Se um dia achares que não te amo, procura-me por lá.

segunda-feira, 18 de março de 2013

O Canto da Sereia

Retomei a consciência lentamente. Sentia-me completamente dorida por ter estado caída durante o que me pareceram horas intermináveis no chão duro do quarto de hotel, embora a rigidez do corpo fosse o menos grave dos meus problemas.
O cheiro agridoce da matança invadiu-me as narinas e o som das gotas de sangue que ainda escorriam do corpo da vítima batiam lentamente no chão, deixando perceber que não tinha passado tanto tempo assim.
A luminosidade que entrava pela janela fez-me ser percorrida por um sentido de urgência. Percebi que tinha que sair dali rapidamente ou estaria perdida, pois não tardaria a amanhecer e com as primeiras horas do dia voltaria o movimento característico dos corredores de um hotel. Não podia ser vista e não me apetecia voltar a matar.
- Porra, isto tem que acabar! – exclamei, enraivecida.
Geralmente preferia as mortes limpas e sem grandes alaridos, mas a decisão não estava nas minhas mãos.
Apesar de ter resmungado em voz baixa, ainda assim sabia que eles iriam ouvir-me e de novo viriam no meu encalço. Não me enganei.
Mal tinha conseguido pôr-me de pé para me vestir quando os senti a invadirem o quarto. Duas figuras altas e imponentes, que impunham respeito a qualquer um. Eram completamente diferentes, mas ainda assim eu sabia que essa diferença era mais superficial do que aparentava.
- Ao menos podiam ter-me deixado vestir!
- Sempre a reclamar. Não sei se já percebeste, mas o corpo humano para nós não vale nada. – respondeu Lúcifer apontando para o corpo da vítima a seus pés, enquanto me dava um dos seus olhares gélidos. - Podias ao menos mostrar-te agradecida pela segunda oportunidade!
 Os seus olhos conseguiam matar qualquer pessoa sem que para isso ele tivesse que mover um dedo, mas não surtiam qualquer efeito em mim. Pelo menos não enquanto estivesse no que eu gostava de definir como «período de estágio», o que era uma vantagem, já que a minha tendência para a insubordinação era lendária entre os meus iguais.
Pedro pôs-lhe uma mão sobre o ombro num gesto apaziguador. Era o único que lhe conseguia tocar sem se transformar num monte de cinzas.
- Calma Lúcifer, sabes que os caminhos da justiça divina levam o seu tempo a serem compreendidos. Dá-lhe tempo e ela habitua-se!
Revirei os olhos com impaciência, sabendo de antemão o discurso que vinha por aí. Virei-lhes as costas e fui para a casa de banho para me lavar e vestir, sem me importar minimamente com a porta, já que privacidade era uma palavra que não existia para aqueles dois.
- Dois anos, Pedro! É tempo que chegue para compreender os meios da justiça divina, não achas? Por mim basta!
- O que sugeres então?
- Um último trabalho. E depois terá que se decidir.
A minha audição apurada afinou-se ainda mais e todos os cabelos do meu corpo se eriçaram com a mudança no discurso de sempre. Aquilo era uma novidade. Geralmente seguia-se uma palestra sobre como me tinham resgatado da morte depois de alguém me ter assassinado numa noite fria, imediatamente após lhes ter prestado uns quantos favores sexuais. Sobre como a minha alma estava suja mas podia ser redimida se aceitasse o acordo que me ofereciam. Sobre a importância do trabalho que faria ao serviço da salvação das almas.
Sim, pois, como se matar pessoas para me redimir fosse assim tão diferente do que tinham feito comigo! Tretas.
Saí da casa de banho e encarei-os, de mão na anca e uma expressão de sarcasmo no rosto.
- Adoro ouvir boas ideias logo de manhã, mas primeiro tenho que sair daqui. Não tenho a capacidade de teletransportar-me de um sítio para o outro, já que alguém – acenei com o queixo na direcção de Pedro – não incluiu esse entre os meus poderes…
Ele não perdeu o seu ar complacente.
- Quando completares o período experimental virão as outras capacidades. Até lá, ficarás praticamente como a simples humana que ainda és. Devias estar grata com as pequenas melhorias que te fizemos, porque te demos as ferramentas necessárias para desempenhares o teu trabalho. Os humanos não as têm e ainda assim não são menos competentes quando se matam uns aos outros! – respondeu com aquele ar sereno que me enervava.
Não resisti a dar uma gargalhada, mas não perdi o ar sarcástico.
- Eu já era prostituta antes de morrer, e das boas, por sinal! A única coisa em que me tornaram competente foi na arte de matar. – fiz uma ligeira pausa, tentando acalmar a raiva que estava em ebulição. Depois anunciei - Vou sair agora. Fico à espera de mais instruções. Quero acabar com isto de uma vez!

***

Esperei dois dias pela nova missão e nunca o tempo demorou tanto a passar.
Lúcifer e Pedro apareceram sem anúncio prévio, como era habitual. Não fizeram cerimónias, nem se demoraram com delicadezas, indo directos ao assunto.
- Lulu White, estamos aqui para a tua prova final, como combinado. Depois disso terás que te decidir! – começou Pedro. – A tua sentença de morte foi suspensa durante este tempo, ao longo do qual trabalhaste para nós. Esta é a redenção pelos pecados que cometeste em vida, conforme te foi proposto.
- Sim, pois – protestei entredentes – até parece que matar pessoas é um pecado menor do que fazer sexo por dinheiro!
- Homens corruptos, assassinos e escumalha do género! – pela primeira vez via Pedro a exaltar-se, saindo da sua pose serena de Guardião das Portas do Céu. – O que tu estás a fazer Lulu, é o resgate das almas perdidas. É diferente quando estás ao serviço de uma causa maior.
Lucifer aproximou-se o suficiente de mim para poder sentir o imenso calor que o seu corpo emanava. Gotas de suor escorreram-me pelas costas abaixo, fruto da sua proximidade.
- Dois anos é o bastante para poderes tomar a tua decisão. Demos-te as ferramentas de trabalho de que precisavas. Explicámos-te que quem entra ao nosso serviço só tem a hipótese de escolher para que lado trabalha: ou resgata estas almas para os portões lá de cima ou para os lá de baixo. Caso contrário, acaba-se a suspensão da morte e passas a ser mais uma na carneirada de almas sem salvação. Este foi o acordo que fizeste connosco e está mais do que na hora de tomares uma decisão!
Fui percorrida por um arrepio e engoli em seco. De facto, esta era a única razão pela qual continuava com as matanças: o medo de desaparecer de vez ou de ser atirada para um buraco qualquer do universo que fizesse parecer os quadros de Bosch num paraíso.
Pedro aproximou-se e a temperatura baixou repentinamente, como se tivesse saído do calor tórrido do deserto para dentro de um congelador.
- Depois desta missão terás que fazer a tua escolha, Lulu. Nada de adiar como tens vindo a fazer.
Assenti em silêncio, tentando aparentar uma confiança que não sentia.

***

Os pormenores da missão eram claros. Eliminar um político corrupto que estava à frente de uma ONG. Aparentemente, o trabalho de beneficência que fazia em prol das crianças desfavorecidas era apenas uma fachada para tráfico de órgãos e de seres humanos em países de terceiro mundo.
Apesar de saber que o homem era um criminoso, não consegui evitar que o meu estômago desse uma volta ao rever mentalmente os pormenores requeridos para mais esta matança.
- OK, respira fundo. – murmurei entredentes para afastar o nervoso miudinho enquanto esperava que a vítima chegasse à porta do bordel que usava como base de operações. – Matá-lo é a parte mais fácil. Não será bonito, mas será mais fácil do que fazer uma escolha.
Bati os pés no passeio para tentar afastar o frio da noite. Quem inventou a mini-saia como uniforme de trabalho para uma prostituta não devia saber o frio que fazia aquela hora da noite naquele canto do mundo!
Trabalhar para o Sr. Brasa ou para o Sr. Cubo de Gelo? A escolha não seria fácil, já que não estavam assim tão distantes moralmente um do outro…
Um ficava com as almas que se tinham perdido acidentalmente pelo caminho. O outro ficava com as almas daqueles que refinavam a crueldade ao longo da vida, tendo feito uma escolha propositada pelo mundo do crime e da depravação. Mas ainda assim nenhum era meigo na hora do resgate, fazendo com que as mortes assumissem um nível de sadismo doentio.
Mas por que raio não me deixavam simplesmente morta e em paz?! Em vida tinha sido prostituta, primeiro por necessidade, depois porque me acostumara à vida de luxo que a minha profissão me proporcionava. Mas para além de fazer sexo por dinheiro, nada mais tinha feito para merecer isto.
- Olá beleza, pronta para uma noite de diversão? – perguntou a vítima, espreitando pela fresta de vidro aberto.
Fiz o que se poderá chamar de sorriso protocolar, mas quase vomitei por dentro ao ouvir aquela frase chavão. Quando o vi pela primeira vez, apeteceu-me matá-lo ali mesmo para acabar logo o assunto! Apesar do fato caro e de bom corte, a cara de sapo retirava todo e qualquer vestígio da minha líbido. Ia ser uma longa noite.
A sedução correu como previsto. O homem pedira exclusivamente os meus serviços e pagara generosamente por eles. Levou-me a jantar num restaurante caro, onde nos sentámos num canto discreto, antes de me enfiar num quarto de hotel.
A minha experiência valeu-me bastante nessa noite. Sorri muito, falei pouco e mexi competentemente o pé sob a mesa, para que o homem sentisse uma súbita urgência em terminar o jantar.
- Nunca falha! – pensei, sorrindo-lhe sedutoramente, enquanto calçava o sapato e ele pagava a conta.
O quarto de hotel era igual a tantos outros. Céus, como estava farta deles! Lençóis brancos, colchas e cortinas de padrão duvidoso eram regra comum e este não era excepção.
A vítima aproximou-se, puxando-me atrás de si para a cama. Sentei-me de joelhos por cima dele e levei uma mão ao peito, como se lhe fosse desabotoar a camisa, mas em vez disso pousei a mão directamente sobre o seu coração.
- O que estás a fazer? – perguntou, assustado.
Sabia exactamente o que ele estava a sentir. O coração a mudar lentamente de ritmo, a dificuldade em conseguir respirar, ao mesmo tempo que os olhos lhe começavam a pregar partidas - as unhas da mão no seu peito a formarem umas estranhas garras e os olhos verdes a ficarem completamente brancos, com chamas ardentes a dançar lá dentro.
- Sabes todas as pessoas a quem causaste sofrimento? Digamos que está na hora de pagares pelos teus pecados… - respondi com a minha voz mais sedutora, ao mesmo tempo que humedecia os lábios com a língua.
- Eu sou um político respeitado! O que pensas que estás a fazer? Quem és tu?! – o ar de terror era cada vez maior.
Por mim acabava já com aquilo, mas o Sr. Brasa e o Sr. Cubo de Gelo queriam que eu brincasse um pouco mais com ele antes de passar à parte em que o matava.
- Oh, és um político sim, mas não vales nada enquanto pessoa! Todas as pessoas a quem fingiste ajudar acabaram em contentores pestilentos e apertados a caminho de outro lado qualquer do mundo, e hoje sabe-se lá o que são forçados a fazer! Outros acabaram numa marquesa, os seus corpos esquartejados, num completo desrespeito pela sua condição humana!
- E o que raio é que isso te interessa? És algum anjo vingador ou quê?! Não passas de uma prostituta. – conseguiu responder, apesar da dificuldade em manter um raciocínio coerente.
- Tens razão, sou o que sou, mas ao menos não o escondo de ninguém, nem me apresento ao mundo com outra cara que não a minha.
O primeiro golpe foi desferido sem piedade, causando dor sem o fazer perder os sentidos. A prática tinha-me tornado exímia na arte de matar, como se já não soubesse fazer mais nada para além de tirar vidas.
Desliguei a mente do corpo para não correr o risco de ser atrapalhada pela minha consciência, que insistia em gritar-me o quão errado era o que estava a fazer nestas horas mais impróprias.
Comecei a sentir o familiar sopro da alma a abandonar o corpo da vítima e preparei-me para o que viria a seguir.
A Morte entrou no quarto, pronta para vir recolher a alma, como era habitual. Curiosamente, debaixo daquela fachada arrepiante, a Morte era mais agradável do que Lúcifer e Pedro.
- Então, Lulu White? Ouvi dizer que estás quase a tomar a tua decisão e que esta alma perdida foi o teste final.
O enjoo começava a instalar-se e a habitual fraqueza também, mas ainda consegui manter um tom firme ao responder.
- É verdade. Embora não seja fácil tomar uma decisão.
A Morte sorriu e retirou a máscara que usava para assustar as vítimas, mostrando-me a sua verdadeira face.
- Nunca é. Mas isso obviamente depende de ti e daquilo em que acreditas.
- E se aquilo em que eu acredito não me fizer escolher por nenhum dos dois? E se eu apenas quiser finalmente alcançar a paz? Se não estiver na disposição de voltar a matar? Se não quiser a redenção que eles me ofereceram?
A Morte deu-me um sorriso sereno.
- E porque achas que a verdadeira redenção é apenas a que eles te oferecem?
- Mas então, se não trabalhar para Lúcifer ou para Pedro, o que me resta? A minha morte definitiva está suspensa! Se me negar, és tu quem estará à minha espera e aí o que será de mim? Vou desaparecer de vez. Não quero morrer.
A Morte arqueou uma sobrancelha e sorriu de esguelha.
- Já alguma vez me perguntaste o que está para além daquela porta? – perguntou, apontando para a porta aberta atrás de si, geralmente por onde entrava e saía com as almas recém capturadas.
Deixei-me cair de joelhos, fazendo um esforço para conseguir raciocinar. As consequências de despender grandes doses de energia ao tirar uma vida começavam a manifestar-se em força.
- Não. Para onde levas as almas que não as entregas ao Sr. Cubo de Gelo e ao Sr. Brasa? As que não têm salvação ou que não aceitam as condições deles não são aniquiladas? São levadas para o Purgatório ou algo do género?
- E queres maior castigo para uma morte do que a própria vida? Começar tudo uma e outra e outra vez? Aqueles que aceitam as condições de Lúcifer e Pedro já não voltam, mas nem sempre essa é a melhor opção. É apenas a que se lhes aparenta a mais fácil.
- Queres dizer que são dois filhos da mãe sem escrúpulos a recrutar almas para as suas próprias causas pessoais?
Já não consegui ouvir a resposta da Morte, pois entretanto perdi os sentidos.

***

Recuperei a consciência e apressei-me a sair dali sem ser vista. Cheguei ao bordel ainda antes do nascer do sol e, enquanto tomava duche, ponderei sobre a decisão que sabia ter que tomar.
Estava a sair do banho quando os dois apareceram à minha frente. Nem sei porque ainda me assustava ao vê-los materializarem-se daquela maneira.
- Um pouco de decência e privacidade, sim? Encontramo-nos daqui a uma hora lá em baixo no salão, se não se importarem?
Olharam um para o outro e encolheram os ombros com indiferença, desaparecendo em seguida com um «tudo bem» ainda ecoando pelo ar.
Preparei-me lentamente para o encontro, mentalizando-me que aqueles poderiam ser os últimos momentos da minha vida. Ou pelo menos do que mais se parecia com uma.
Aproximei-me silenciosamente, sem um único barulho que denunciasse a minha presença, como me tinham ensinado. Rápida, eficiente e mortífera, era no que me tinham tornado. Uma máquina de matar.
Fechei os olhos e respirei fundo. Desembainhei silenciosamente as espadas das bainhas nas minhas costas. Tinham-se tornado as minhas armas de eleição no desempenho das minhas funções de anjo vingador. As garras eram só para o espectáculo.
Lúcifer e Pedro não tiveram tempo para se aperceberem do que lhes acontecera. Num instante estavam na conversa, no outro estavam caídos no chão, com as cabeças decepadas do corpo.
- Redenção? Seus hipócritas filhos da mãe! Este é o merecido castigo por todas as almas que me obrigaram a recrutar para as vossas causas doentias. – limpei as lâminas nas suas roupas antes de as voltar a embainhar. – Quero lá saber da redenção! Está demasiado frio lá em cima e demasiado calor lá em baixo. Acho que prefiro voltar para aqui…
Subitamente, apareceu a porta por onde a Morte costumava entrar para levar as almas.
- Vejo que tomaste a tua decisão. – comentou, com ar casual assim que entrou, olhando para os corpos que jaziam no chão.
- E eu presumo que não seja pelas almas deles que estejas aqui.
A Morte desviou-se para que eu pudesse passar, mas antes de entrar pela porta, fiz uma última observação.
- Não cheguei a ouvir o que me respondeste há pouco quando te perguntei se eles recrutavam as almas para os seus propósitos pessoais.
O olhar da Morte foi trespassado por um brilho que não decifrei, antes de me responder.
- Dizia-te que somos todos filhos da mesma mãe…

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Cinzas

Hoje arrancaram do meu peito a esperança.
Hoje seguraram no meu coração e esmagarm-no até não restar nada mais.
Apenas pó. 
Reduziram-no a cinzas, daquelas partículas insignficantes que voam com o vento.
Resta-me agora ver em que direcção irão voar.
Se pousarão numa floresta sombria, se mergulharão nas ondas do mar ou se continuarão a ser levadas pelo  vento.
Hoje uma parte de mim morreu. 
Resta-me apenas saber se a luz que havia em mim terá força suficiente para voltar a brilhar.
Se o Sol do universo conseguirá chegar de novo até mim e aquecer o buraco que ficou no meu peito.
Vou chorar até ao esquecimento e deixar as cinzas pousar.
Resta-me saber para onde vão.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Temos 3 possibilidades na vida: desistir, morrer ou recomeçar.

Temos 3 possibilidades na vida: desistir, morrer ou recomeçar.

Santa era uma jovem mulher. Não era uma brasa, não era uma diva. Apenas uma mulher. Normal, cheia de rotinas e daquilo que se pensa ser uma vida.
Mas Santa não era feliz. Dentro das suas rotinas, Santa morria a cada dia que passava e, ao mesmo tempo que morria para a vida exterior, algo no seu interior despertava cada vez mais.
Com o passar do tempo, Santa mudou a sua vida para o mundo da fantasia. Deixou de existir na sua rotina diária, deixou de viver no mundo exterior para se refugiar dentro de si própria.
Com o tempo, deixou de reconhecer a família e os amigos, que foram sendo substituídos pelos do seu mundo lá dentro.
Cá fora só tinha problemas e chatices, intrigas e conspirações que a ditavam como louca. Mas dentro do seu mundo, Santa era uma heroína e vivia uma vida cheia de aventuras. Cá fora o mundo era cinzento, mas lá dentro era a cores. Cá fora, tudo era silêncio e vazio, mas lá dentro era cheio de vida!
O tempo passou e Santa desistiu de vez da sua vida. Nada a fazia feliz, nem a sua própria família. E foi então que Santa morreu.
No dia da sua morte, Santa não chorou nem se quis agarrar à vida. Não se importou com os filhos que deixava por criar. Não se importou se o esposo a chorava. Simplesmente deixou-se ir, até o mundo lá fora se desvancer de uma só vez.
Santa viu-se então no tão falado túnel de luz branca de que tanto ouvia falar. Tudo era escuro e vazio. Tudo era frio. Menos a luz. Aquela luz bela e colorida que dançava à frente dos seus olhos e a fazia vibrar. Essa era quente trazia-lhe algum conforto.
Santa dirigiu-se à luz mas não conseguiu passar através dela. Não conseguiu ver o que estava para além do brilho que a ofuscava e atraía.
"E agora, o que faço?" - perguntava-se Santa, sem saber mais para onde ir.
Tinha deixado de viver no mundo lá fora para viver no que criara dentro da sua própria cabeça, onde era bem mais feliz, onde podia ser quem quisesse, fazer o que quisesse sem se preocupar com os outros e as suas opiniões, os seus julgamentos. Tinha morrido e passara a barreira das limitações humanas. Mas e agora, o que fazer a seguir?
Santa sentou-se para tentar perceber este quebra-cabeças. Pensou, pensou, pensou...até que desistiu. Na sua mente, a morte deveria ter-lhe dado acesso a um outro mundo e o túnel deveria ter-se aberto para ela passar. Mas isso não tinha acontecido.
Desesperada, Santa encostou a cabeça sobre os joelhos e chorou até limpar a Alma. Foi então que sentiu uma pressão no peito e ficou ali simplesmente a sentir. Quando parou e ficou atenta ao que sentia e nada mais, percebeu que o seu coração batia. O seu coração ainda batia. Mas como seria isso possível, se Santa tinha morrido?
Deliciada com o batimento do seu próprio coração, Santa lembrou-se que ele só batia assim quando ela sonhava, naquele mundo tão dentro de si.
Mas a luz não se abrira e, se ela não morrera, então qual seria a solução?
Naquele momento, Santa ouviu o seu coração a responder-lhe.
"Vive. Sente. Liberta-te!"
E quando Santa compreendeu tudo, a luz resplandesceu ainda mais e o túnel abriu-se para ela passar.
Quando saiu do outro lado, agarrou a mão que alguém lhe estendia e sentiu de imeadiato o calor que irradiava dela. Só depois abriu os olhos para ver onde estava.
Não tinha saído da sua própria cama, mas nada lhe parecia igual. Nada era o mesmo, agora que Santa vi tudo com os olhos do coração. Tudo deixara de ser cinzento e passara a ser colorido. A realidade à sua volta estava cheia de cores, sons e cheiros e ela sentia-se viva.
Santa percebeu que a verdadeira vida não estava dentro da sua cabeça, mas lá fora. A vida estava no mundo lá fora. Nas pessoas, nas coisas, nas plantas, nos animais, na cidade! Em todo o lado havia vida a fervilhar! Cabia-lhe agora a ela entrar dentro dela e participar. Sem medo dos julgamentos, apenas sendo ela própria, existindo apenas com a sua essência. E isso abriria as portas daquele mundo. Daquele mundo lá fora, que Santa agora bem sabia que era também o seu.
 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desafios, balanços e pensamentos profundos...

Sabemos que a vida nos lança desafios todos os dias. Sabemos que para evoluirmos e aprendermos, precisamos estar despertos e conscientes de quem somos. Para que a vida flua e nos sintamos felizes, muitas vezes acabamos por ter que tomar decisões difíceis e, muitas vezes incoerentes aos olhos dos outros.
Mas a pior coisa que podemos fazer é mentirmos a nós próprios, porque por mais que tentemos pintar a realidade de cor-de-rosa, mais cedo ou mais tarde a tinta começará a estalar e o brilho a desaparecer.
Ser verdadeiro é muitas vezes difícil e pode magoar as pessoas de quem se gosta. Mas eventualmente um dia será bem mais compensador. Não há nada que pague a leveza da Alma e a nossa Paz de Espírito.
É com este pensamento que vos deixo neste fim de ano, quando também eu estou fechada para balanço.
Namasté!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Caminho - Aprender

A vida é feita de caminhos e escolhas. Cada uma acarreta consequências cujo desfecho nunca poderemos prever.
Quando estamos numa encruzilhada, muitas vezes escutar o coração é muito difícil. Sentir o que se deve fazer é muito difícil.
Avançar com os dois pés firmes é muito difícil.
A única certeza que teremos será a que vem, por vezes anos mais tarde: é a de que se não avançarmos, nunca vamos evoluir; se não tentarmos, nunca vamos saber; e se nunca errarmos, nunca vamos aprender.

domingo, 23 de setembro de 2012

Se D. Afonso Henriques saísse da tumba...


Sou a contribuinte nº210388994. Uma cidadã anónima, sem nome sonante ou rosto marcante. Sou apenas mais uma no rebanho que vive o seu dia-a-dia na correria que é a vida numa cidade.
Mas não sou igual a todos os outros. Eu sou eu. Eu sinto, eu amo, eu vivo. Ou melhor, sobrevivo o melhor que posso ou que consigo.
Tenho uma família, como tantos outros milhares de portugueses. E tal como esses outros tantos que nos rodeiam, faço parte de uma sociedade.
Hoje uma vez mais olhei para a terra que me rodeia e os olhos quase se inundaram de gratidão, pelo simples facto de a minha miopia ainda assim ma permitir ver e apreciar a sua beleza.
Percebi que se D. Afonso Henriques pudesse caminhar entre nós neste exacto momento, daria umas boas espadeiradas a muito boa gente.
Porque o sonho que ele teve de tornar um Condado num Reino, naquilo que se define hoje como país, perdeu-se da sua essência original. Aquilo que se pretendia era um território vasto, povoado, unido sob a mesma bandeira, onde se partilhassem ideais. Naquele tempo, apesar da ambição da conquista, o que se amava era o chão e as riquezas que este lhes proporcionava. Era a terra que lhes dava tudo, desde o prestígio ao alimento, desde o abrigo ao sustento.
Hoje em dia tudo mudou. O país é o mesmo, mas a sua essência já não. Os que hoje o governam, tiram-lhe a Alma, num desassossegado jogo de cadeiras, onde se enchem as panças e as bolsas sem qualquer pudor. Pisa-se a terra, mas em vez de dela brotarem flores, racha-se o chão e sangram os rios. Calam-se as aves e fogem os animais para paragens longínquas, porque à sua volta aquilo que era o nosso país está moribundo!
Quando o exemplo que devia vir de cima não chega, eis que começa a fervilhar o terror nas cabeças do povo. Daquele povo que, como eu nada sabe e nada compreende sobre jogos políticos e financeiros, sobre esquemas e ardis montados, por detrás das mentiras contadas com máscaras inexpressivas no rosto.
E depois do terror vem a indignação, quando se vê que esta terra que tudo tem para nos dar, na verdade tem os seus recursos mal aproveitados e mal geridos, por algumas pessoas a quem se chama «Doutor» sem que de nenhum deles venha remédio ou cura para o mal do país.
Somos todos portugueses. Filhos de uma nação valente e imortal. Então, porque não levantam os nossos governantes o esplendor de Portugal?
Nós, os do povo, que exibimos os nossos canudos obtidos com lágrimas e suor enquanto brandimos as mãos aos céus, perguntamos o porquê de tudo isto? O que fizemos nós senão estudar e trabalhar, esforçando-nos ao máximo para ter uma vida, o que fizémos senão pagar impostos sem garantias ou regalias, e agora eis que chega esta classe de letrados incultos em relação ao verdadeiro valor da vida, acenando com contas para pagar, de cujas dívidas não me lembro de ter contraído?
Basta! Basta de não se dar o devido valor à vida! De se desvalorizar as pessoas e desmoralizar a nação! Basta de sofrermos tanta falta de respeito!
Eu sou eu. Um indivíduo. Mas faço parte de um todo. De uma sociedade, que se funcionar como uma máquina bem oleada, fará com que cada um desempenhe a sua função e contribua para que o país se mantenha e se sustente, sem quaisquer esquemas ou subterfúgios, sem que os que menos têm sejam estrangulados e privados de uma vida digna e confortável para que os que mais têm continuem a enfiar mais dinheiro nos bolsos.
E como o exemplo costuma vir de cima, é por isso que, quando alguns patrões vêm o abuso que o próprio poder político exerce impunemente sobre a sociedade, lhes seguem os passos de imediato. E assim a nossa sociedade, em vez de ser como a tal máquina bem oleada, torna-se uma bola de neve, que acumula porcaria ao mesmo tempo que varre tudo à sua frente por onde passa.
Amo o chão que piso com todas as minhas forças. Continuo a maravilhar-me com as cores, os cheiros, os sons. Continuo a ser embalada pelo som da maresia e pelos contos acerca de tempos idos, quando Portugal era um país, vasto e glorioso. Não me quero ir embora. Não quero ter que me ir embora!
Quero ter condições de cá viver, de continuar a sonhar todos os dias sem pensar em impostos e taxas! Quero ensinar as minhas filhas a fazerem parte da terra e a amarem-na tanto como eu. Quero que elas possam crescer a falar a sua lingua e a sonhar em português.
É hora de olharem para cima, senhores. Tirem os olhos dos vossos umbigos! Se lá em cima ainda assim não encontrarem inspiração, então voltem-se para dentro e perguntem à vossa consciência, se têm condições para continuarem a trabalhar como até agora. E se mesmo assim a vossa consciência nos vos der resposta, espero que ao menos olhem por cima do ombro. Não vá D. Afonso Henriques ter saído da tumba para vir de espada em riste a correr atrás de vós, expulsando-os do território que conquistou a troco de sangue e suor, forçando-os a emigrar.