Onde a minha imaginação cria mundos. Aqui encontra um pouco de tudo: reflexões pessoais, pequenos contos, poesia, crónicas... Venha descobrir o imaginário que povoa a minha realidade e, ao mesmo tempo, conhecer um pouco mais sobre mim. Atreve-se a voar comigo?
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quarta-feira, 12 de junho de 2013
Vazio
Procuro por ti em cada gesto que faço.
Imagino-te aqui, bem perto, ao alcance da minha mão.
É como se estivesses ali, naquele espaço vazio e, ainda assim eu não te conseguisse tocar.
Beijo-te em cada palavra que sussurro ao teu ouvido.
São palavras de amor, aquelas que saem directamente do meu coração.
Estão-me gravadas na Alma e insistem em sair, ainda que não me consigas escutar.
Os beijos e as palavras perdem-se no ar. Espalham-se por este universo que habita em nós, e envolvem-te por completo como suaves carícias.
Fazes-me falta.
Sem ti, nada é inteiro, nada é completo, nada sou eu. Eu não sou nada.
Será que me ouves nesse teu universo paralelo ou será que sou eu que não te consigo ouvir?
Será que também chamas por mim e me alcanças nos sonhos, mesmo não sabendo quem sou?
Vem e banha-me nesse mar azul com que me olhas. Envolver-te-ei com os meus braços num eterno enlace que não te voltarei a deixar escapar.
Por ti perderei o medo de voar bem alto e, juntos, conquistaremos as estrelas.
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terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Temos 3 possibilidades na vida: desistir, morrer ou recomeçar.
Temos 3 possibilidades na vida: desistir, morrer ou recomeçar.
Santa era uma jovem mulher. Não era uma brasa, não era uma diva. Apenas uma mulher. Normal, cheia de rotinas e daquilo que se pensa ser uma vida.
Mas Santa não era feliz. Dentro das suas rotinas, Santa morria a cada dia que passava e, ao mesmo tempo que morria para a vida exterior, algo no seu interior despertava cada vez mais.
Com o passar do tempo, Santa mudou a sua vida para o mundo da fantasia. Deixou de existir na sua rotina diária, deixou de viver no mundo exterior para se refugiar dentro de si própria.
Com o tempo, deixou de reconhecer a família e os amigos, que foram sendo substituídos pelos do seu mundo lá dentro.
Cá fora só tinha problemas e chatices, intrigas e conspirações que a ditavam como louca. Mas dentro do seu mundo, Santa era uma heroína e vivia uma vida cheia de aventuras. Cá fora o mundo era cinzento, mas lá dentro era a cores. Cá fora, tudo era silêncio e vazio, mas lá dentro era cheio de vida!
O tempo passou e Santa desistiu de vez da sua vida. Nada a fazia feliz, nem a sua própria família. E foi então que Santa morreu.
No dia da sua morte, Santa não chorou nem se quis agarrar à vida. Não se importou com os filhos que deixava por criar. Não se importou se o esposo a chorava. Simplesmente deixou-se ir, até o mundo lá fora se desvancer de uma só vez.
Santa viu-se então no tão falado túnel de luz branca de que tanto ouvia falar. Tudo era escuro e vazio. Tudo era frio. Menos a luz. Aquela luz bela e colorida que dançava à frente dos seus olhos e a fazia vibrar. Essa era quente trazia-lhe algum conforto.
Santa dirigiu-se à luz mas não conseguiu passar através dela. Não conseguiu ver o que estava para além do brilho que a ofuscava e atraía.
"E agora, o que faço?" - perguntava-se Santa, sem saber mais para onde ir.
Tinha deixado de viver no mundo lá fora para viver no que criara dentro da sua própria cabeça, onde era bem mais feliz, onde podia ser quem quisesse, fazer o que quisesse sem se preocupar com os outros e as suas opiniões, os seus julgamentos. Tinha morrido e passara a barreira das limitações humanas. Mas e agora, o que fazer a seguir?
Santa sentou-se para tentar perceber este quebra-cabeças. Pensou, pensou, pensou...até que desistiu. Na sua mente, a morte deveria ter-lhe dado acesso a um outro mundo e o túnel deveria ter-se aberto para ela passar. Mas isso não tinha acontecido.
Desesperada, Santa encostou a cabeça sobre os joelhos e chorou até limpar a Alma. Foi então que sentiu uma pressão no peito e ficou ali simplesmente a sentir. Quando parou e ficou atenta ao que sentia e nada mais, percebeu que o seu coração batia. O seu coração ainda batia. Mas como seria isso possível, se Santa tinha morrido?
Deliciada com o batimento do seu próprio coração, Santa lembrou-se que ele só batia assim quando ela sonhava, naquele mundo tão dentro de si.
Mas a luz não se abrira e, se ela não morrera, então qual seria a solução?
Naquele momento, Santa ouviu o seu coração a responder-lhe.
"Vive. Sente. Liberta-te!"
E quando Santa compreendeu tudo, a luz resplandesceu ainda mais e o túnel abriu-se para ela passar.
Quando saiu do outro lado, agarrou a mão que alguém lhe estendia e sentiu de imeadiato o calor que irradiava dela. Só depois abriu os olhos para ver onde estava.
Não tinha saído da sua própria cama, mas nada lhe parecia igual. Nada era o mesmo, agora que Santa vi tudo com os olhos do coração. Tudo deixara de ser cinzento e passara a ser colorido. A realidade à sua volta estava cheia de cores, sons e cheiros e ela sentia-se viva.
Santa percebeu que a verdadeira vida não estava dentro da sua cabeça, mas lá fora. A vida estava no mundo lá fora. Nas pessoas, nas coisas, nas plantas, nos animais, na cidade! Em todo o lado havia vida a fervilhar! Cabia-lhe agora a ela entrar dentro dela e participar. Sem medo dos julgamentos, apenas sendo ela própria, existindo apenas com a sua essência. E isso abriria as portas daquele mundo. Daquele mundo lá fora, que Santa agora bem sabia que era também o seu.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
"Somos todos um"
Sabemos que há algo muito acima de nós quando vemos as nossas vidas por
um fio e, de repente, há alguma coisa que nos puxa de volta e nos coloca de
novo nos eixos.
É algo que se assemelha ao despiste de um carro que vai embater contra
o tronco que se avizinha bem à nossa frente, mas de repente há algo que nos
trava desse embate bem no último momento.
E aí temos duas opções: ou nos vitimizamos, ou aproveitamos para pensar
e reflectir.
Eu escolhi a segunda opção.
***
Havia uma voz na minha cabeça.
Essa voz dizia-me que este dia não ia ser igual aos outros, que, de alguma
forma, estava destinado a ser diferente.
Andara com esta sensação estranha
desde que me levantara da cama, mas
achava que era loucura da minha cabeça. Pela enésima vez consultei a
minha agenda, como se o pensamento na minha mente conseguisse formar por magia
um compromisso tão extraordinário, que explicaria tal pensamento. Mas uma vez
mais constatei que nada acontecia. Tal como nada lá estava.
Tinha a agenda vazia. Nada de
compromissos de trabalho, nada de vida social.
Reflecti um pouco sobre isto. Era
de facto um dia diferente, já que em todos os outros dias da minha vida, tinha
sempre a agenda cheia e uma data de mensagens no telemóvel para responder.
Na realidade, eram quase todos
contactos de trabalho. Pouco tempo me restava para a vida social e esta
constatação fez-me abrir a agenda na página dos contactos.
“Trabalho, trabalho, trabalho…”
Todos os números lá registados
era contactos profissionais, alguns dos quais de pessoas que nunca tinha visto
pessoalmente.
Bem, certamente teria alguma
coisa pessoal na agenda do telemóvel. Mas não, na verdade não tinha.
Busquei em todos os recantos da
minha memória, tentando recordar todos os nomes que faziam parte da minha
infância e da minha adolescência, mas foi com muito custo que consegui fazê-lo.
A lista que começara a rabiscar no papel continuava demasiado curta. Passei
para os nomes das pessoas que conhecera na universidade. Certamente que me
recordaria de mais, já que não se haviam passado assim tantos anos. Mas ainda
assim, a lista continuava reduzida.
Parecia que me encontrava numa
redoma de vidro, num casulo que me separava de tudo e de todos à minha volta e
que me impedia de ver os outros, mas sobretudo de ser vista.
Olhei pela janela, mas a vista
que tanto amava desapareceu por completo dos meus olhos. Era como se, de
repente, se tivesse feito noite sobre o Tejo e a cidade ficasse imersa no mais
escuro breu de todos os tempos.
“Caramba, terei ficado cega?”
Mas não. Como se alguém
subitamente tivesse ligado o interruptor da luz, senti-me completamente
encandeada e a cegueira passou por completo, como se a aurora de um novo dia
raiasse no horizonte, mesmo à frente dos meus olhos.
“Mas o que raio está a acontecer
comigo? Se não fiquei cega, fiquei louca, só pode!”
A luz à minha volta ficou normal
e de novo me vi sentada na cadeira do escritório a olhar pela janela.
E então, foi como se de repente
uma descarga eléctrica percorresse o meu corpo e me acordasse para a vida.
“Porra, estar sozinha não tem
piada. É como ter um tesouro enorme e não partilhar uma única moeda com o
mendigo que nos pede ajuda para comer!”
É que uma coisa é gostarmos de um
pouco de solidão, de preservarmos a nossa independência. Outra coisa é
isolarmo-nos do mundo e dos outros. Perdermos as experiências, as trocas, a
divindade que há em cada um de nós. Perdermos a oportunidade de nos darmos aos
outros. Perdermos a amizade e, sobretudo o Amor.
Levantei-me num ápice e comecei a
abrir as gavetas da secretária, uma a uma, retirando de lá todos os papéis.
“Que se lixe a arrumação! Onde
está? Onde está?!”
Deixei-me cair no chão, chorando
e sentindo-me no mais absoluto desespero, até que de repente, bem na minha
frente, espreitando de dentro de um grande envelope cor-de-rosa, apareceu o que
procurava.
“A minha agenda antiga! Está
aqui, encontrei-a! Obrigada meu Deus.”
Segurei-a junto ao peito, fechei
os olhos, inspirando profundamente num alívio absoluto e, pela primeira vez
nessa manhã, senti o ar a inundar os meus pulmões. Folheei as suas páginas e
ali estavam todos os nomes de todas as pessoas com quem me cruzara ao longo da
minha vida. A caligrafia era a minha, e podiam ver-se as sucessivas alterações
nos números de telefone e nas moradas ao longo dos anos. Curioso, porque algumas
delas já nem me lembrava de as ter anotado.
Sorri ao ser inundada com as
recordações de cada um dos nomes. Com a forma com que cada um deles tocara a
minha vida e nesse exacto momento tomei uma resolução: não voltaria a
isolar-me. Não voltaria a usar o trabalho e a independência para me enfiar de
novo num casulo. O Ser Humano não foi feito para ficar só. E eu não queria
voltar a estar só.
Peguei no telefone para ligar à
minha amiga mais antiga, aquela que fizera da minha infância uma época de
delícias e foi então que tudo aconteceu.
De novo a minha visão se
obscureceu e logo em seguida se encandeou com a claridade à minha volta. Sentia
o meu corpo enfraquecido, mas ao mesmo tempo nunca estivera tão viva. Conseguia
sentir tudo e todos ao meu redor, como se os nossos corações batessem em
uníssono e os nossos pulmões respirassem ao mesmo ritmo. Conseguia cheirar
todas as flores, ouvir o restolhar de todos os ramos e de todas as folhas no
meio do chão.
Os meus ouvidos foram inundados de
som. E, apesar de alguns barulhos mais estridentes, foi como se ao longe
ouvisse uma voz melodiosa a cantar uma canção de boas-vindas.
“Consegue ouvir-me?” – perguntava
uma voz insistentemente junto ao meu ouvido.
Abri os olhos e passei a mão pela
cabeça, no sítio onde uma dor latejante se insinuara. Olhei para o rosto ali
tão próximo do meu e respondi, surpreendentemente com uma voz mais audível do
que pensara ser possível. Audível e calma.
“Melhor do que isso!” – disse-lhe
com um sorriso.
Os seus olhos, de um verde tão
profundo como as folhas da floresta à minha volta, iluminaram-se e sorriram de
volta, embora o seu rosto me fizesse uma pergunta muda, como se as minhas
palavras o tivessem deixado confuso.
“Consigo fazer mais do que
ouvi-lo. Consigo escutá-lo. Consigo
sentir tudo o que me rodeia! E isso faz toda a diferença.”
Ao perceber o significado das
minhas palavras, a sua face iluminou-se tanto como o seu olhar e apertou-me a
mão, um pouco comovido.
Olhei em redor e percebi que,
naquele local onde o meu carro resvalara da estrada, se tinha juntado uma data
de gente que não me conhecia de lado nenhum, só para me ajudar. E o paramédico
que me socorria e me sorria de volta era um deles.
“Acho que isto lhe pertence. Pelo
menos era o que segurava na mão quando a encontrámos.” – disse-me,
entregando-me a minha agenda antiga.
Fiquei abismada com o que os meus
olhos viam. Não mexia naquela agenda havia anos e tinha a certeza de que estava
guardada num canto recôndito de uma gaveta qualquer! Como é que tinha ali
aparecido? Nas minhas mãos, tinha dito ele?
“Faça-me um favor. Escreva aí o
seu nome. E o de toda a gente que parou para me ajudar. Quero agradecer a todos
mais tarde.”
Ele sorriu novamente e fez o que
lhe pedira sem hesitar. Todas as pessoas ali presentes lhe deram o nome e
contacto sem sequer questionarem o porquê do meu pedido. E isso fez o meu
coração bater mais forte.
Se queria um milagre na minha
vida, então Deus escreveu certo por linhas tortas.
Demonstrou-me que a sua mão está
presente em tudo e todos à nossa volta e que o Ser Humano ainda é capaz de
olhar à sua volta e estender a mão para ajudar o próximo.
Demonstrou-me que, sobretudo nas
horas da mais pura aflição, funcionamos em rede. Todos em conjunto, na mais
absoluta conexão. E é nestes momentos que os milagres ocorrem.
Somos todos um.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Uma noite de tempestade...
Há uma aura de magia no ar num dia de chuva. Não sei se é do cheio a terra molhada, se é das cores que despontam do céu quando se abre um simples raio de sol.
Desde miúda que os arco-íris me fascinam. São algo que mexe comigo, vindos directamente daquele mágico mundo da imaginação que só uma criança é capaz de ter. E foi num dia de chuva que o arco-iris aconteceu e ficou para toda a minha vida...
Saí do autocarro e abri espaço por entre a multidão para tentar abrir o chapéu de chuva. Este era um Inverno particularmente chuvoso, com dias cinzentos e frios, que eram capazes de nos gelar por fora e por dentro.
Consegui furar pelo meio daquele mar de gente que se deslocava pelas ruas da cidade e entrar na porta do prédio da minha casa, sem me molhar, o que por si só era um feito digno de mérito, já que o céu decidira descarregar toda a sua fúria de uma só vez.
Mal tinha entrado em casa quando senti algo peludo roçar-me nas pernas. Era o Chakra, o meu siamês, que tinha um acordo tácito comigo: festas na barriga em troca de passar algum tempo ao meu colo.
Era a minha única companhia mas confesso que depois de um dia de trabalho me dava imenso prazer chegar a casa e ter um companheiro silencioso que não era demasiado exigente e que quase não me dava trabalho a tratar.
Naquela noite sentia-me cansada. Mais do que era habitual. Tomei o meu banho e vesti uma roupa confortável, que andava entre o decente para sair e comprar qualquer coisa para comer e o conforto do sofá, onde planeava deixar-me dormir.
Calcei uns ténis e vesti um casaco impermeável e quente.
- A dona já vem. Porta-te bem. - disse para o Chakra, em jeito de aviso.
Os seus olhos azuis brilharam, aceitando o desafio que acabara de lhe impôr e lambeu lânguidamente os beiços. Já sabia que ia encontrar alguma coisa fora do lugar quando voltasse a entrar em casa.
Saí do prédio e pus-me a caminho do pronto-a-comer no quarteirão seguinte. Ainda chovia e estava a tentar abrir o chapéu de chuva para não apanhar uma molha, que me valeria uma bela constipação após o banho quente e reconfortante de onde acabara de sair.
Estava tão envolvida na luta com o chapéu que nem o ouvi aproximar-se.
- Precisas de ajuda?
Oh céus, a sua voz tinha o dom de mexer comigo e me deixar irritada. Aliás, o simples facto de ele respirar me deixava irritada!
Ergui os olhos e encontrei os seus. Azuis, claros como o mar das Caraíbas e nesse dia não exibiam o rasgo de ironia que estava tão habituada a encontrar ao longo dos anos.
Baixei um pouco as defesas e descontraí o maxilar, o que também tornou a minha voz um pouco menos áspera do que o habitual ao responder-lhe.
- Não, obrigada. Isto é só dar aqui um jeitinho e já se segura...
- Tens a certeza?
- Absoluta.
Ele encolheu os ombros e caminhou rumo à porta do prédio. Do prédio onde eu morava. Do meu
prédio.
Fechei os olhos por um momento, respirei fundo para normalizar o ritmo cardíaco e voltei à minha luta com o chapéu tentando varrê-lo do pensamento. Definitivamente o universo gostava de uma brincadeira de mau gosto de vez em quando. Só podia, para tê-lo feito meu vizinho depois de tudo o que me fizera passar...
Finalmente consegui fazer segurar o chapéu de chuva aberto e pus-me a caminho.
Tinha ficado intrigada com o olhar dele. Parecia que toda a idiotice habitual tinha desaparecido, que as barreiras que erguia à sua volta tinham sido derrubadas. Parecia quase um ser humano normal.
André eu eu tinhamos crescido juntos. Quero dizer, não na mesma casa, mas na mesma rua. Desde miudo que o detestava. E ele a mim. Tinhamos o condão de nos irritarmos mutuamente. Ele porque era um verdadeiro idiota e se armava em parvo, eu porque ficava tão irritada com a sua idiotice que não resistia em mexer-lhe com os nervos.
Como daquela vez em que eu estava com um grupo de amigas num bar e ele arranjou maneira de me fazer entornar a bebida sobre o meu vestido novo, que me fazia umas pernas deslumbrantes, exactamente no momento em que eu estava quase a dar a volta a um espécimen do sexo oposto que era do tipo semi-Deus...e eu depois vinguei-me dizendo a todas as minhas amigas que ele não sabia beijar e que me tinha lambido até à goela! Não que ele tivesse de facto tentado beijar-me alguma vez ou vice-versa, mas o boato arruinou-lhe a reputação durante uns bons meses.
Só de pensar naqueles tempos veio-me um sorriso ao rosto. Parecia que não me conseguia lembrar da minha existência sem ele para me irritar.
Depois de eu ter saído da casa dos meus pais tinha finalmente conseguido um pouco de paz. Ele entretanto também tinha ido morar com a namorada, por isso os nossos caminhos afastaram-se durante alguns anos...até há algumas semanas atrás!
Estava eu descansadinha da vida quando a um Domingo de madrugada (tipo, onze da manhã depois de uma saída até tarde com amigas) oiço um barulho de coisas a arrastar sobre a minha cabeça. A custo tinha aberto os olhos e foi com horror que percebi que tinha adormecido com a persiana em cima e a visão da minha janela incluía um elevador de uma carrinha de mudanças. Arrastei-me até lá para fechar a persiana, evitando exibir a minha roupa interior a uns quantos homens das mudanças e foi com horror que vi o André lá em baixo, a comandar os trabalhos.
Tentei raciocinar e percebi que o andar que ficara vago por cima de mim tinha sido alugado na semana anterior...e pelos vistos tinha sido por ele! O meu pensamento vagueou por entre uns palavrões e um "a minha vida acabou!" mas depois percebi que era o cansaço que me estava a puxar para o melodrama.
Como estava enganada! Desde que me descobrira, num dia em que eu estava a entrar encharcada no prédio, que o inferno estava de volta à minha vida. O mesmo olhar zombeteiro, o mesmo ar arrogante...
O pior tinha sido quando me tinha visto a entrar com um amigo no prédio. O olhar que me lançou oscilou entre o "vou contar tudo à tua mãe!" e o "o que é que pensas que vais fazer com esse fulano?". Incomodou-me a tal ponto que o encontro que se antevia escladante não passou de um mero café.
Consegui chegar ao pronto a comer sem ficar entalada no chapéu. Pedi a comida e voltei para trás, fazendo o caminho de regresso a casa mais uma vez absorta em pensamentos e recordações. Nem dei pela sombra que se aproximou por detrás de mim e que me deu um puxão na mochila que levava apoiada só num ombro.
Só dei por ter gritado a plenos pulmões mais tarde, ao rever a cena na minha cabeça. Naquele instante tudo se passou muito rápido. Tão rápido que só momentos depois consegui ver o que estava a acontecer. Alguém me tinha tentado roubar a mochila e o André, sim o André, tinha apanhado o fulano e estava a dar-lhe um enxerto de porrada.
Encostei-me à parede a tremer e passado alguns momentos o André veio ter comigo já com a mochila na mão. Tinha recomeçado a chover mas nem tinha dado conta.
- Estás bem? - perguntou-me.
- Sim. E tu? - ainda não conseguia acreditar que ele tinha dado um enxerto no assaltante e me devolvia calmamente a mochila.
- Estou bem. Vamos para casa.
Não consegui deixar de pensar na ironia da situação e apesar de tudo dei por mim a sorrir e a dizer-lhe com um ar malicioso.
- Para a tua ou para a minha?
Ele sorriu-me de volta percebendo a piada mas não respondeu. Em vez disso acompanhou-me em silêncio.
- Não tinhas ido para casa? - perguntei-lhe.
- Tinha. Mas continuo a ter o péssimo hábito de fumar e desci para comprar cigarros.
Chegámos à porta do prédio e entrámos. Subimos escada acima e chegámos ao meu andar num instante. Abri a porta mas não entrei logo e ficámos parados a olhar um para o outro sem saber bem o que dizer. Pela primeira vez não estavamos a implicar nem mal-dispostos com a presença do outro no mesmo espaço. E isso era muito estranho.
Reparei que ele estava a sangrar do canto da boca e instintitavemente levantei a mão para lhe tocar, mas ele parou-me a meio.
Respirei fundo e resignei-me. Não éramos nem nunca seríamos amigos, mas pelo menos podia deixar de ser grosseiro.
- Por favor não! - disse-me.
Isso desencadeou-me uma reacção familiar, que foi a de me deixar furiosa com ele.
- Bolas André, pára de ser estúpido! Estás a sangrar porque andaste à pancada com um assaltante por minha causa. Ao menos deixa-me tratar disso.
- Não é preciso. Eu próprio trato disto quando chegar a casa.
- É o mínimo que posso fazer.
- Não.
A sua teimosia deixou-me com a irritação crescente que sempre me fazia sentir.
- Porque é que não deixas de ser parvo ao menos uma vez na vida André? Desde miúdo, nunca foste capaz de ser minimamente simpático para mim. Sempre te comportaste como um verdadeiro idiota, sempre te divertiste a estragares as minhas saidas, os meus arranjinhos... Mas afinal que mal é que eu te fiz?
As perguntas saíram-me da boca em jeito de desabafo, mas não esperei para ouvir a resposta. Simplesmente voltei-lhe as costas e entrei em casa, batendo a porta com força. Mas a porta não fez qualquer estrondo. Pelo menos quando eu a fechei, porque bateu com uns segundos de atraso.
Quando me apercebi, o André puxava-me pelo ombro e encurralava-me a um canto do hall de entrada, numa proximidade física que me deixou ofegante.
Só naquele momento reparei nele. Em como era alto, como tinha ombros largos e braços fortes. Quando me ergueu o rosto para poder olhá-lo nos olhos, vi que as suas mãos eram duras e delicadas. E vi no seu olhar um fogo que não conhecia.
- Mal? Passei a vida a defender-te dos idiotas por quem te apaixonavas ou que te queriam levar para a cama! Das tuas pseudo-amigas que te criticavam pelas costas! A tentar chamar a tua atenção quando tu nem percebias que eu existia!
Abri a minha boca de espanto, e pela primeira vez na vida fiquei sem palavras para lhe responder.
Quando forcei o meu cérebro a raciocinar, analisei toda a minha infância e adolescência e tentei vê-la pelos seus olhos e fiquei espantada. Quando para mim aconteciam desgraças, ele estava sempre por perto. Mas a perspectiva dele ia sempre mais além do que a minha. E enfureceu-me perceber que tinha razão na avaliação do caracter das pessoas de quem acabava por me proteger. Só que eu, emvez de pensar nisso dessa forma, durante toda a minha vida acabei por culpá-lo de tudo o que me acontecera. Porque era mais fácil e habituei-me a que ele estivesse sempre lá.
Um pouco como hoje. Numa situação como a de hoje não imaginava mais ninguém para me safar destes apuros. E ele tinha estado lá, uma vez mais.
A sua mão ainda segurava a minha face, mas a fúria inicial com que me forçara a olhá-lo estava a desaparecer.
Levantei a minha mão e levei-lha de novo ao canto da boca magoado, acariciando-o levemente enquanto murmurava:
- Desculpa André. Desculpa-me! Nunca tinha pensado em tudo isto dessa perspectiva...nem sei o que te diga! Acho que era mais fácil descarregar em ti do que enfrentar a verdade. E devo ter sido mesmo muito má para ti....no entanto, hoje estiveste lá de novo exactamente quando mais precisei de ti. Obrigada.
O seu olhar perdeu as ultimas faíscas de fúria e agora exibia uma outra expressão que já lhe tinha visto várias vezes, mas que não soubera identificar.
Engoli em seco antes de conseguir continuar. Precisava que ele me respondesse a uma pergunta que me aflorava a mente desde miúda.
- Porquê? Se só querias o meu bem, porque me tratavas tão mal e me deixavas acreditar que eras uma pessoa horrível?
- Porque nunca quis admitir isto.
E nesse momento o André beijou-me. Senti a pressão da sua boca contra a minha numa urgência que só o desejo acumulado poderia despertar. As suas mãos ergueram-me à sua altura e as minhas mãos rodearam-lhe de imediato os ombros, num desejo que correspondia em pleno ao seu. Os nossos corpos moldaram-se como se fossemos um só. E então o tempo pareceu entrar em suspenso e nada mais importava à nossa volta.
Foi o beijo da minha vida. O único com significado. O único que realmente mexeu comigo.
Ali mesmo o meu mundo abanou e nunca mais foi o mesmo.
Chovia torrencialmente lá fora, numa calorosa tempestade que combinava com o bater dos nossos corações. Mas ali dentro da minha casa, naquele momento deixou de ser de noite, pois à frente dos meus olhos estava um homem que se tornou o arco-íris da minha vida. E naquela noite fizemos magia, bem ao jeito daquela que só acontece em dias de chuva...
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
A poetisa da Alma
Margarida era uma poetisa. Não porque escrevesse e fosse famosa, mas porque era uma poetisa da Alma...
Como habitualmente, Margarida saiu de casa logo pela manhã cedo. Ia trabalhar.
Fechou a porta de casa à chave e montou-se na bicicleta. Olhou para o céu e pôs-se a caminho.
Não tinha andado ainda uns cem metros, quando reparou que tinha um pneu furado. Saiu da bicicleta e encolheu os ombros, parecendo resignar-se, mas o sorriso não lhe saiu do rosto.
Mal acabara de sair da bicicleta, quando começou a chover torrencialmente. Margarida recolheu-se ainda mais para debaixo da varanda do prédio ao pé do qual tinha parado e aguardou pacientemente que parasse de chover.
Ao pé de si estava um jovem. Alto, bem-parecido, mas com um olhar cheio de aflição, visivelmente impaciente por aquela chuva inesperada.
Margarida resolveu sorrir-lhe, disposta a meter conversa para passar um pouco melhor o tempo.
- Parece que estamos aqui presos...
O rapaz, meio desconfiado, meio a medo, lá acabou por responder.
- É, com esta chuva toda e sem chapéu... Uma maçada não é?
Margarida inspirou e sentiu o aroma das flores que estavam à venda na florista da esquina antes de responder. Ao sentir o aroma familiar da terra molhada misturado com rosas sorriu.
- Não, não é.
O rapaz olhou-a espantado, perguntando-se se teria dito alguma asneira, ou se esta seria mais uma lunática como tantas outras que para aí andavam.
Ao vê-lo a olhar para ela de maneira inquiridora, Margarida sorriu ainda mais.
- A beleza do dia está nos olhos de cada um. Você vê um dia mau. Eu vejo simplesmente mais um dia e não faço planos para ele, não crio expectativas. Simplesmente sei o que tenho para fazer. Como e quando o faço é-me indiferente. Assim não me aflijo com horários ou imprevistos.
O rapaz pareceu ficar ainda mais intrigado.
- Mas como pode ser lá isso? Você não tem que ir trabalhar? Não tem um horário a cumprir?
- Tenho, como toda a gente. Mas se o Universo me deu um furo no pneu, como hoje e me pôs debaixo desta varanda no exacto momento em que desatou a chover, em vez de o encarar como uma chatice, encaro-o como uma oportunidade.
- Uma oportunidade? De quê?
- Bem, não me molhei no caminho, não furei o pneu em situação perigosa no meio do trânsito, estou a cem metros de casa e ainda vou a tempo de ir apanhar o autocarro. Quanto aposta? - respondeu-lhe ainda a sorrir.
Nesse exacto momento, um raio de sol brilhou entre as nuvens e apareceu um maravilhoso arco-íris no céu.
O rapaz olhou-a e, pela primeira vez o seu olhar deixou de estar carregado de urgência e exibiu um sorriso.
- E se entretanto conseguir fazer alguém sorrir neste período de espera, então o dia será ainda mais maravilhoso! - continuou Margarida que se agarrou na bicicleta e se começou a dirigir de novo para casa.
O rapaz ainda sorria quando ela virou costas. Só passados alguns momentos conseguiu articular as palavras que lhe assolaram o coração.
- Obrigado! Tenha um bom dia!
Margarida parou por um pequeno instante para se voltar para trás e sorrir de volta.
- Para si também. - respondeu.
Quando voltou a sair de casa para ir para a paragem de autocarro, tinha um rosa branca no degrau da sua porta.
Agarrou nela e cheirou-a, sentindo agora o aroma mais intensamente no seu coração. Ao invés de a deixar em casa, levou-a consigo, carregando as suas boas vibrações junto ao coração.
Nunca se sabia o que estava por acontecer. E aquele doce aroma poderia ser a poesia em falta na vida de outro alguém...
domingo, 29 de janeiro de 2012
Abandono...
Sentado no banco do carro tentei perceber para
onde nos dirigíamos. Era um dia de sol e lembrei-me que este era o
caminho que fazíamos para ir à praia.
Disseram-me que era surpresa o meu destino e fui mantido na curiosidade e na expectativa durante o tempo todo da viagem.
Parámos
à beira da estrada e fiquei extasiado com a possibilidade de sair para
esticar as pernas. Abriram a porta do carro para eu sair e saltei
contente do banco. Aproveitei para fazer xixi ali mesmo. Assim não faria
de certeza no banco do carro e todos iam ficar contentes.
Começaram
a brincar comigo. Mandaram-me uma bola para eu ir apanhar e eu fui.
Correndo e saltando feliz atrás da bola nem me apercebi do que estava a
acontecer.
Quando ouvi o barulho do
motor do carro parei de perseguir a bola e olhei para trás. Vi que o
carro estava a ir-se embora, primeiro devagar e depois desaparecia cada
vez mais depressa.
Corri atrás do
carro, tentando apanhá-lo. Porque se teriam esquecido de mim ali no meio
do nada? Corri mais e mais e ainda mais depressa, mas o carro era dez
vezes mais veloz. Depressa fiquei cansado e deitei-me ali mesmo na berma
da estrada tentando recuperar o fôlego.
Agora já não conseguia ver o carro, mas havia muitos carros a passar por ali.
Fiquei
ali triste e sozinho, chorando as mágoas durante algum tempo. Quando
não sabia o que mais podia fazer, fui buscar a bola e trouxe-a de novo
para a berma da estrada.
A noite chegou
e com ela veio o frio e a fome. Nunca tinha passado uma noite ao
relento nem me tinha faltado uma refeição. Já me tinham batido e
acorrentado, mas nunca me tinham deixado abandonado. Era uma situação
nova e eu não sabia o que fazer.
Tentei
aconchegar-me perto de uma árvore para não sentir tanto frio e dormir
um pouco, mas não consegui. Resolvi andar um pouco, mas os carros que
por ali passavam iam-me atropelando por várias vezes. Cheguei perto de
um sitio com muitas casas de onde vinha um forte cheiro a comida.
Avistei
uma casa pequena rodeada de um jardim florido onde brincava uma
criança. Ela olhou para mim e sorriu com uns olhos cor de amêndoa cheios
de alegria.
- Mãe! - chamou a menina. - É um cãozinho! E parece estar cheio de fome, coitadinho. Podemos dar-lhe de comer?
- Claro! - respondeu a mãe. - Vamos arranjar qualquer coisa.
E
foi assim que deixei de ter fome fome, sede ou frio. Porque uma menina
de olhos grandes me viu e se apaixonou por mim à primeira vista, tal
como eu me apaixonei pelo seu sorriso. Com o tempo fui entrando pelo
quintal dentro, até ter conquistado o direito a um pedaço da casa e à
totalidade dos seus corações. Não voltei a ser deixado na berma da
estrada, não se voltaram a esquecer de mim e eu amo-os todos os dias da
minha vida.
O dia da Reforma
Carolina era uma mulher com cinqueta anos. Diz
quem a conhecia que tinha sido uma mulher lindíssima na flor da idade.
Hoje era uma pessoa a quem as rugas não perdoaram e o peso da idade se
fazia sentir na balança.
Trabalhava
no balcão de uma agência de viagens quase tão antiga como ela, do tempo
em que os barcos eram habituais e que as companhias aéreas se contavam
pelos dedos das mãos.
Carolina
tinha-se habituado a tudo, aos faxes, aos computadores, aos telemóveis,
enfim, tudo o que era tecnologia não era desconhecido, mas não era algo
com que se sentisse confortável. Ela era uma empregada à moda antiga,
para quem o facto de falar ao telefone com alguém era mais valorizado do
que enviar um e-mail.
Julieta,
a sua colega de trabalho desde há vinte anos era o oposto. Embora
tivessem apenas dez anos de diferença, era o bastante para nunca se
terem compreendido. Julieta era uma mulher do mundo, uma mulher moderna,
adepta das novas tecnologias e de uma vida boémia.
Davam-se
relativamente bem, isto é, ignoravam-se para não discutirem por tudo e
por nada. Só falavam por questões de trabalho e pouco mais, a não ser
que o patrão estivesse presente. Nessas alturas eram capazes de manter
conversas polidas, por causa das aparências. Ainda assim, quando
conseguia arranjar uma desculpa para dar uma "escapadela" do trabalho,
Carolina não se fazia rogada. Para Julieta essas "escapadelas" eram um
alívio, já que a outra passava todo o dia a suspirar alto e a
queixar-se.
Depois de trinta anos de dias
cinzentos, Carolina reformou-se. O ultimo dia foi um alivio para o
espírito e foi trabalhar com uma boa disposição nunca antes vista. O
cabelo arranjado, as unhas pintadas, um vestido novo. Afinal ansiara por
este dia na maior parte dos últimos vinte anos!
Na
hora da despedida não lhe custou empacotar o que restava dos seus
objectos pessoais e vir-se embora. Não houve abraços nem olhos marejados
de lágrimas. Apenas os beijos da praxe e um olhar mais prolongado pela
sala.
Julieta
tinha ficado de pé a vê-la partir. Carolina tivera vontade de lhe dizer
que agora finalmente podia ocupar a secretária e o lugar de chefia que
há tanto tempo lutava por conseguir, mas não se quis chatear.
A
primeira semana depois da reforma parecia um sonho. Finalmente tinha
tempo para dormir, comia bem e a horas decentes, inscreveu-se no ginásio
e mantinha o dia ocupado.
Na
segunda semana, começou a sentir-se sozinha pois a filha passava a
maior parte do dia na escola e da noite com os amigos. Como é que ela
não tinha dado por aquela ausência antes? Que maçada! Logo agora que
tinha tempo, a filha parecia que não lhe ligava nenhuma.
Na
terceira semana pensou em passar mais tempo no ginásio, mas à noite o
corpo pregava-lhe partidas, como quando se queria mexer e já não
conseguia. A casa parecia-lhe cada vez mais silenciosa. Definitivamente
tinha que ter uma conversa com a filha.
Nessa
noite, quando a filha chegou a casa, disse-lhe das boas, mas a resposta
que levou foi que ao final de dezassete anos é que se tinha lembrado
que ela existia e tal, pelo que não ia mudar coisa nenhuma na sua vida
para ficar enfiada em casa tipo uma velha.
Ao
final de um mês, já com as velharias deitadas fora, as gavetas
arrumadas, a casa a brilhar tanto que se podia lamber o chão, e as
vidraças reluzentes, não sabia mais o que fazer. Lembrou-se de ir
passear. Começou a percorrer as ruas, aparentemente sem destino, mas os
pés e os velhos hábitos levaram-na ao percurso dos ultimos trinta anos.
Quando deu por si estava no antigo local de trabalho. Meio dividida,
decidiu entrar. Para sua surpresa, encontrou Julieta na mesma secretária
e a sua antiga mesa de trabalho estava vazia. Olhou para aquele espaço e
pareceu que estava a olhar para um mausoléu, onde tudo tinha sido
preservado exactamente como ela tinha deixado. Não havia uma única coisa
fora do lugar.
Quando entrou sentiu que o vazio que a assolara durante o ultimo mês se tinha ido embora.
"Bom dia!" - disse quando entrou.
Julieta olhou para ela e sorriu com a boca e com os olhos, pela primeira vez em vinte anos.
"Bom dia! Bem-vinda de volta!" - respondeu-lhe.
Carolina
sentou-se na sua velha cadeira, ligou o computador e começou a
trabalhar como se apenas tivesse chegado de umas longas férias. O seu
velho patrão dirigiu-se a ela com uma pasta para que pudesse ter
trabalho por onde começar.
"Sentimos a sua falta." - disse-lhe, virando as costas em seguida.
Pela
primeira vez em muito tempo conseguiu sentir que era querida naquele
lugar e percebeu que se calhar o problema não era de Julieta, mas dela
própria. A hostilidade que emanava era a que recebia de volta e, no
momento imediato em que começou a sentir saudades da sua antiga vida e
aquilo que fazia, conseguiu perceber que só ali se sentia completa.
Nunca mais faltou ao trabalho.
Uma vida oculta
Maria era uma mulher de meia idade, como a maior
parte das mulheres de meia idade são. A sua beleza já não era mais a
mesma, o corpo estava ligeiramente deformado e a paciência arrumada por
uma existência algo infeliz.
Ela era
uma senhora. Oriunda de uma família de fazendeiros angolanos, donos de
fazendas e matagais a perder de vista, viu-se de repente sem nada no
período do pós-guerra e teve que refazer a sua vida noutro país. Adorava
bordar, cozinhar e outros louvores femininos, coisas que fazia
particularmente bem, mas a sua vida nunca fora abençoada pela
maternidade.
Tímida e calada nas
reuniões familiares, ninguém sabia ao certo quem ela era, porque o seu
comportamento de senhora ainda tinha o pudor de outrora.
Diz
quem os conhecia que era o oposto do marido. José também era oriundo de
uma família de agricultores, mas a sua educação não chegava aos
calcanhares da de sua mulher. Rude, teimoso e machista, era o protótipo
de um Portugal ainda rural de há 30 anos atrás.
Maria morreu do mesmo modo como viveu: de uma forma calma. Um dia estava a dormir e não mais acordou.
O
marido tratou dos trâmites do funeral. Maria fora uma boa esposa e ele
queria dar-lhe tudo o que ela merecia. Apesar de não gostar de gastar
muito dinheiro, José não tinha coragem de negar à sua esposa todas as
regalias da sua última morada. Para além de ter medo que a sua alma o
perseguisse, tinha também medo das más linguas da vizinhança.
Mas
quando se tratou de arrumar os trapinhos da sua esposa, pois ele não
era homem de guardar muitas recordações, muito menos de um defunto,
chamou as suas sobrinhas, duas jovens mulhers que por certo teriam mais
jeito do que ele para aquelas tarefas de mulher.
As
duas lá foram, um pouco atrapalhadas por sentirem que nunca tinham
conhecido bem aquela tia calada e tímida. Começaram pela roupa que
estava pendurada no roupeiro e depois passaram às gavetas. No fundo de
uma das gavetas estava uma chave, que as jovens não sabiam de onde
seria.
Mais tarde, ao tentarem abrir
uma das pequenas portas da parte de cima do armário, verificaram que
esta estava fechada. Lembrando-se da chave encontrada, experimentaram-na
na dita porta e esta abriu-se.
Ficaram
atónitas ao verem vários caderninhos, todos eles escritos com a letra
aprumadinha da sua tia. Eram os seus diários, algo que ela tinha mantido
em segredo durante toda a sua vida.
O armário tinha ainda pilhas de cartas, algumas ainda contendo o perfume de uma paixão certamente adormecida pelos anos.
As
duas jovens deixaram as pilhas de roupa em cima da cama e
embrenharam-se numa viagem no tempo, que as levou até a uma Àfrica
desconhecida e apaixonante. Numa só tarde, viveram amores e desamores,
as coscuvilhices de uma sociedade coquette e uma tórrida paixão por um
soldado português em tempo de guerra.
Quando o tio chegou a casa encontrou as duas jovens sentadas na cama lavadas em lágrimas.
"O que estão vocês a ler?" - perguntou, curioso.
"Só uns livros de receitas que a tia guardava. Ficámos emocionadas, só isso." - respondeu uma das sobrinhas.
"Coitadinhas" - disse José - "Gostavam muito da tia não era? Se vos custar muito esta tarefa, eu peço à mana Josefa."
"Não!" - responderam em coro.
"Tio, será que podemos ficar com estes livros da tia?" - perguntou uma das sobrinhas.
"Sim,
claro, para que é que eu preciso de livros de receitas. Ainda está para
chegar o dia em que vão ver-me no fogão!" - respondeu o tio virando as
costas em seguida.
As sobrinhas
acenaram com a cabeça, em sinal de concordância e em seguida voltaram
para o mundo dos sonhos: dos bailes da sociedade, dos encontros no meio
das plantações de café e das noites de paixão escaldante nos braços de
um soldado que não se chamava José.
Suck it up!
Raquel trabalhava sozinha o
dia todo. A manutenção do seu negócio exigia que tivesse um espaço
calmo, onde lhe fosse prmitido pensar e dar asas à sua imaginação, mas
também uma bancada de trabalho, onde podia fazer trabalho mais prático.
Era
conhecida no país todo. Ou melhor, o seu nome era conhecido por todo o
país, embora ninguém soubesse na realidade quem era a mulher por detrás
do que saía daquele espaço.
A
sua vida era preenchida pelo trabalho durante o dia e pela família
durante a noite. Embora fosse perfeitamente feliz com o marido, após 15
anos de casamento a chama da paixão tinha-se apagado. Não sabia se havia
culpas a atribuir, ou se o cansaço da rotina causava este esmorecimento
com toda a gente.
Já
tinha assisitdo a divórcios de alguns casais amigos, mas o seu casamento
continuava sólido como uma rocha. O marido tratava-a como uma princesa e
tinha dois filhos extraordinários, já a entrar na fase da
pré-adolescência, pelo que achava que não tinha razões para se divorciar
como as suas amigas.
Mas
aos 35 anos Raquel sentia-se insatisfeita. Queria mais da vida. Não era
dinheiro que lhe faltava, tinha todo o conforto material possível e
imaginário, mas o vazio era emocional, era a sensação de sentir-se
desejada, algo que o marido não lhe transmitia. Faziam amor, claro, mas
era como se fosse uma rotina, um hábito adquirido, mais uma tarefa na
sua lista diária de compromissos na agenda. Até os horários se tinham
tornado previsíveis e Raquel estava a ficar farta.
Até que um dia a sua rotina mudou.
Um
dos estafetas da empresas de transporte que usava habitualmente para
fazer envios para os seus clientes entrou na sua sala de trabalho como
era normal. Apesar de já trabalhar com ele há mais de um ano, nunca
tinham trocado muito mais do que o cumprimento da praxe. Eventualmente
dois dedos de conversa superficial, mas não havia a mínima confiança.
Raquel deu consigo a olhar para ele e a perceber que só nesse dia realmente o viu.
Não era um homem de capa de revista, mas era tinha uma beleza
interessante: não muito alto - apenas o suficiente para se poder aninhar
nele e sentir-se protegida - olhos castanhos claros, um nariz fino e
proeminente no tamanho certo para não ser demasiado grande, lábios finos
mas carnudos. Desejou beijá-los e saborear o gosto da sua lingua.
Desejou passar-lhe as mãos pelos cabelos escuros e inspirar o aroma
másculo da sua pele.
Sentiu
o ar a estalar debaixo dos dedos e acordou da visão que tinha acabado
de ter. Reparou que ele a olhava com interesse enquanto franzia o
sobrolho.
- Desculpe, perdi-me num pensamento. O que estava a dizer?- Perguntava se já tem a guia de transporte preenchida.- Claro, só falta você assinar. Está aqui em cima.
Ambos
estenderam a mão ao mesmo tempo para o pedaço de papel em cima da
bancada e as suas mãos tocaram-se levemente. Houve uma descarga
eléctrica entre os dois e de repente, sem que nenhum deles soubesse
como, já se beijavam sofregamente. O beijo foi tudo o que ela imaginara e
muito mais. Começou sem que soubessem como nem porquê, mas depois
passou a ser menos intenso, mas mais sensual, quase terno até.
Quando conseguiram separar-se, olharam um para o outro completamente horrorizados com o que tinham acabado de fazer.
- Desculpe D. Raquel! Eu nem sei como isto foi acontecer!
Ele estava visivelmente atrapalhado. O tom de voz era de quem estava até horrorizado.
-
Deixe estar Sr. Ricardo, você não tem culpa de nada. Acho que nenhum de
nós os dois percebeu muito bem como é que isto aconteceu no inicio. -
respondeu, ainda meio atordoada e ofegante.
Os
seus corpos ainda recuperavam do embate de energia, mas apesar de tudo
Raquel conseguia ser um pouco mais racional do que ele.
- Diz bem, no início! Mas depois eu gostei e continuei, mesmo consciente de que o que estava a fazer era errado!-
E julga que o sentimento não foi mútuo? Se eu não tivesse correspondido
minimamente ou se não tivesse querido que você continuasse, pode ter a
certeza que nunca se teria prolongado esta siuação.-
Meu Deus, eu volto a pedir desculpa. - ele encostou-se à bancada de
trabalho com a cabeça entre as mãos. - Eu nem sei por onde hei-de
começar para compôr a asneira que acabei de fazer.- Você conhece a expressão inglesa "suck it up"?Ele assentiu afirmativamente com a cabeça.-
Então já sabe o que fazer: aguente-se à bronca. Somos os dois adultos e
nenhum de nós é inocente. Aconteceu. Aguente-se que eu também.Raquel
reparou no pormenor da aliança no dedo anelar esquerdo, algo que nunca
lhe tinha chamado à atenção anteriormente. Hoje parecia que aquele anel
tinha luzes de néon embutidas.- Você também é casado?- Sou e juro que nunca me tinha acontecido nada disto até hoje! Nunca toquei noutra mulher!- Eu acredito que sim, porque também eu nunca tinha beijado outro homem desde que casei!No meio de toda a confusão que sentiam, ele conseguiu olhar para ela e sorrir, tentando aliviar a tensão.-
Apesar de tudo, deviamos sentir-nos lisonjeados. Conseguimos fazer um
ao outro em dois minutos o que algumas pessoas ao longo dos anos não
fizeram.- É verdade. - ela sorriu de volta indo encostar-se ao lado dele na bancada.Era uma tentativa mútua de aligeirar o clima tenso e incómodo que se instalara.-
Ainda assim não voltará a repetir-se, prometo! - disse-me com
convicção, enquanto agarrava na guia e a assinava, preparando-se para ir
embora.- Está bem. Va-se lá embora e cuide bem da minha encomenda. Até à próxima.Ele
avançou até à porta mas ainda antes de sair voltou-se para trás tão
repentinamente que quase esbarrou nela, que o seguia de perto.
Sentiram-se novas faíscas no ar e acharam prudente que cada um desse um
passo atrás.- Vais conseguir ficar bem
contigo e com o teu marido? - perguntou ele, olhando-a intensamente e
usando um tom de voz que deixou trespassar alguma intimidade. Também não
lhe passou despercebido o facto de a ter começado a tratar por "tu".-
Vou. Vou ficar bem, acho. O problema serei eu e não com o meu marido.
Ele nada tem a ver com o que se passou. E tu? - ela levantou os olhos
para ele e a intensidade do olhar dele forçou-a a manter o olhar.- Vou ficar com um peso na consciência, mas no fundo sinto o mesmo que tu.Passou-lhe a mão pela face em jeito de despedida e foi-se embora com a embalagem que tinha vindo buscar.Ele saiu e durante muito tempo aquele beijo não saiu da cabeça de Raquel. Pela primeira vez em anos sentira-se viva.
O
tempo foi passando e ele continuou a vir fazer as recolhas das
encomendas que Raquel expedia para os seus clientes. Depois de terem
superado o constrangimento inicial, conseguiram começar a falar cada vez
mais e mais, cimentando as bases de uma forte amizade.Quando
ele estava com pressa, não se demorava e nenhum gostava quando isso
acontecia. Geralmente, ele reservava sempre meia hora para estar com ela
e ela guardava aquele tempo para conseguir fazer uma pequena pausa ao
longo do dia. Sentavam-se lado a lado, numa pose descontraída, bebendo
um chá ou um café. Contavam um ao outro algumas das suas peripécias. Com
o tempo começaram a fazer alguns desabafos. As conversas foram-se
tornando intimistas e chegou uma altura em que já nenhum dos dois
precisava de falar para adivinhar o estado de espírito do outro.
Os
seus casamentos continuavam de pé e aparentemente felizes, mas ambos
sabiam que já não conseguiam viver sem se verem todos os dias. Mesmo
quando não tinha encomendas para enviar, ele passava por lá simplesmente
para cumprimentá-la.
Nunca
mais se tinham beijado, mas jamais tinham conseguido deixar de se
continuar a tocar. Depois do constrangimento inicial e enquanto
cimentavam amizades, Raquel e Ricardo passaram do toque casual à carícia
intencional. Às vezes passavam todo o tempo de mão dada. Um dia em que
ele estava na mó de baixo e passou simplesmente para desabafar, acabaram
os dois sentados no chão, num recanto da sala, com ele aninhado nos
seus braços em busca de conforto.
Passaram
cinco anos desde o beijo. Todos os anos ele vinha com uma rosa branca
nessa data e todos os anos acrescentava uma rosa, como símbolo da
contagem dos anos.
Este ano não era excepção. Mas havia alguma coisa na sua expressão que estava diferente.
- O que é que se passa? - perguntou ela.
- Feliz aniversário! - respondeu ele, avançando para ela, abraçando-a com força.
Raquel correspondeu ao abraço e sucumbiu à ternura que este continha.
- Ricardo, o que se passa? - repetiu.
- Não me vais desejar um feliz aniversário? - em vez de lhe dizer o que ela queria saber, ele respondeu com uma pergunta.
- Só depois de me dizeres o que se passa contigo.
Ela
afastou-se para olhá-lo nos olhos e assustou-se com o que viu. Um fogo
tão intenso, uma luz tão forte, que não teve dúvidas sobre o que se
passava com ele.
- Eu digo-te o que se passa.
E
puxou-a para si, agarrando-a pela nuca. O beijo que se seguiu foi forte
e intenso e libertou cinco anos de carinho e desejo acumulado.
- Ricardo, tinhamos concordado que a nossa relação nunca iria passar para este nível. Não podemos!
-
Lembras-te do que me disseste há cinco anos atrás? Suck it up! Os
nossos conjuges andam enrolados um com o outro. Não é curioso?
Ela deu dois passos atrás sem poder acreditar no que ele lhe estava a dizer.
- O quê?!
-
Aparentemente a minha fiel esposa desconfiou que eu andava com alguém e
mandou fazer umas investigações. É claro que nunca lhe entregaram nada
de concreto porque nunca aconteceu nada entre nós, mas foi o suficiente
para ela ir ter com o teu marido e apresentar as suas conclusões. Ela
confrontou-me com isso ontem à noite e eu finalmente admiti aquilo que
sabia dentro de mim há cinco anos. Só que as coisas entre eles foram
também evoluindo e tornaram-se bastante quentes.
- Não posso acreditar. O meu marido e a tua mulher?
- Mas podes mesmo acreditar Raquel. Eu apanhei-os em flagrante! Na minha casa! Hoje!
- O quê?
-
Cheguei a casa mais cedo porque queria tomar banho e preparar-me para
vir ter contigo. Como podes ver, não o fiz, pois ainda estou com a minha
farda de trabalho e a cheirar a cavalo, nada do que tinha planeado para
ti.
Ela teve que sentar-se no chão pois corria o risco de cair a qualquer momento.
- Sabes o que é mais curioso? É que não me importei mesmo nada! - continuou ele.
Raquel
tentou analisar o que sentia. Na realidade, também ela não sentia raiva
nem tristeza dentro dela. Nem tão pouco uma pontada de ciume, o que era
estranho, pois de cada vez que pensava em Ricardo e como seria quando
ele estava com a mulher dele, quase se roía toda.
Olhou para ele e riu às gargalhadas.
- E o que fizeste quando os apanhaste?
Encolheu os ombros e sentou-se no chão ao meu lado, entrelaçando a sua mão na minha.
- Nada.
Raquel olhou para ele com espanto.
- Como nada?
- Mentira. Passei na florista para te comprar as rosas. E depois vim para cá. Foi o que fiz.
- E eles?
-
Eles não importam Raquel, não me ralo mesmo nada! Eles não fizeram mais
do que apaixonar-se, o que no fundo foi o que nos aconteceu. Mas temos a
nossa consciência tranquila porque nunca mais nos tocámos e ali não
houve essa consideração. Magoa-me apenas o facto de termos deixado
arrastar esta situação durante tanto tempo. Os quatro.
- Oh céus! E agora? O que vamos fazer?
- Primeiro vamos divorciar-nos. Acho que não faz sentido continuarmos a viver mais tempo assim.
- Concordo.
- E depois vamos casar-nos. Nós os dois. Tu e eu.
- Vamos?
- Vamos.
Raquel
olhou para ele e sorriu. Ele preenchia-a de todas as formas que o
marido nunca conseguira, apesar de a tratar como uma princesa. A
comunicação, a linguagem corporal, os gostos, o facto de conseguirem
expressar os sentimentos em voz alta. Não tinha a mais pequena dúvida de
que daria certo.
- Só tenho uma condição a impôr.
Ele olhou para ela e sorriu. Antes mesmo de ela lhe dizer o que era, já ele lhe respondia.
- Nem penses que vou esperar até ao casamento!
E
Raquel viu-se tomada de assalto ali mesmo, no chão da sua sala de
trabalho, o seu refúgio durante cinco anos e sentiu uma felicidade
enorme.
A partir de agora o vazio estava preenchido por completo.
Só
Aos 35 anos Corina era uma
mulher solitária. Morava sozinha num pequeno apartamento alugado no
centro da sua cidade natal. Tinha muitos amigos, mas não tinha uma
namorado.
Dizia
quem a conhecia que nunca a tinha visto com um homem e comentavam as
más linguas que iria morrer virgem e sem ter conhecido homem, mas a
verdade é que as coisas não eram bem assim.
De
facto, Corina passara muitos anos sem uma companhia masculina. Tinha os
seus romances fugazes, mas nada de compromissos sérios. Isso não era
para ela.
Mas aos 30 anos tudou mudara.
Uma noite, ao regressar a casa depois de mais uma das suas saídas com amigos, eis que sentiu uma presença junto a si.
Olhou
para trás, sentindo um pouco de receio. Afinal os noticiários estavam
todos cheios de histórias de assaltos, violações e assassinatos.
Não viu ninguém, mas ainda assim acelerou o passo até entrar no prédio.
No dia seguinte comentou o sucedido com as amigas e todas sem excepção lhe disseram para ter muito cuidado.
Nesse
fim de tarde, quando regressava do trabalho, Corina estava
completamente absorta nos seus pensamentos. Ao chegar ao quarteirão onde
morava, preparava-se para atravessar a estrada nas passadeiras quando,
subitamente, um carro perdeu o controlo e subiu o passeio indo na sua
direcção.
Isto
aconteceu tão depressa, que não teve tempo para nenhuma reacção, mas
eis que subitamente se sentiu puxada por umas mãos fortes que a tiraram
da frente do carro.
Corina
caiu para trás, embatendo em cima de alguém. Era o homem com mãos
fortes, que também se desequilibrara ao tentar retirá-la da zona de
impacto.
Ficaram
os dois um sobre o outro, olhos nos olhos, sentindo a conexão que se
estabelecera entre ambos como se um laço invisível os tornasse um só
para sempre. O bater dos seus corações tornou-se um só.
O
condutor do automóvel saiu desesperado, procurando ver se ninguém se
magoara. Tinha perdido os travões e não conseguira dominar a viatura.
Corina
levantou-se e estendeu a mão ao estranho que a salvara. Ambos estavam
no seu próprio mundo e parecia que o tempo tinha para do à sua volta. Os
sons da realidade chegavam muito ténues aos seus ouvidos. Só tinham
olhos um para o outro. Mão um para o outro. Todos os seus sentidos
despertos e alerta um no outro. Nada mais tinha importância.
Ainda
alheados da realidade foram-se embora. Corina conduziu o estranho que a
salvara até à sua casa. Mal entrarm no apartamento, não foram precisas
palavras. Começaram a despir-se e fizeram amor como quem se conhecia há
muito, muito tempo.
Corina sabia que era uma loucura, mas se o era então não queria voltar a ficar sã.
Adormeceram
agarrados e sem uma palavra. Na manhã seguinte, o homem tinha
desaparcido. Só o seu corpo extenuado testemunhara a noite anterior.
Passou
o dia todo absorvida pela dureza da realidade e apenas comentou com as
amigas o facto de quase ter sido atropelada, omitindo o resto dos
acontecimentos.
Nessa
tarde, ao chegar a casa, o estranho estava à porta, à sua espera. Uma
vez mais não foram precisas palavras, bastou um olhar e a conexão
estabeleceu-se de imediato.
Primeiro mataram a sede da paixão que os consumia até à alma. Só depois tiveram coragem para conversar.
Ele
primeiro. Com uma voz grave e rouca contou-lhe que não podia vir ter
com ela durante o dia. Nunca. Só a partir do momento em que o sol se
punha no horizonte é que poderia aparecer.
Ela perguntou-lhe, rindo, se ele era vampiro.
Não, não era, mas enquanto o sol brilhasse estava aprisionado num corpo que não era o seu.
Corina
aceitou o que ele lhe contou sem reservas e os seus encontros
continuaram furtivamente quando o sol se punha, todos os dias sem
excepção.
Ninguém
desconfiou de nada e todos continuavam a comentar a vida infeliz que
tinha aquela jovem mulher, que vivia na companhia do seu fiel gato, do
qual nunca se separava em nenhuma situação. Diziam as más linguas que a
ouviam a falar com ele durante o dia e a noite, e que a jovem mulher que
não tinha namorado e ia morrer virgem, estava já a enlouquecer.
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