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segunda-feira, 5 de março de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho: Parte 5 - "Vingança - Beatriz"

(continuação)

A esplanada estava praticamente cheia de gente. A narrativa do grupo de amigas tinha sofrido uma pausa porque o empregado de mesa andava a atender os clientes que tinham acabado de chegar.
Todos tinham curiosidade em saber porque razão tinham aquelas senhoras as dentaduras dentro dos copos e a todos sem excepção o empregado respondia com um sorriso:
- Bem, é uma longa história. Porque não ficam para ouvir?
Quando finalmente regressou à mesa do grupo das velhas senhoras, a conversa girava à volta do filho da velha senhora de ar doce e majestoso que se chamava Beatriz e que hoje era já um homem adulto e bem sucedido na vida, mas aparentemente não tão bem sucedido no amor.
- Oh, eu acho que ele está a ser parvo!  - dizia a velha senhora que se chamava Madalena.
- Bem, eu não tenho assim tanta certeza, mas quem sou eu para dizer alguma coisa? - dizia a sua amiga Marta.
Inês mantinha-se calada e pensativa, como se esta história lhe fizesse lembrar de um certo modo a sua e quando falou, fê-lo num tom suave e doce.
- Beatriz, o André é um homem feito. Foi educado por uma mulher fantástica que, apesar de ter uma vida profissional intensa e em constantes viagens, nunca deixou de o acompanhar em todas as horas da sua vida. E foi criado no meio de nós todas também. A sua sensibilidade para o mundo das mulheres está presente, mas não deixa de ser homem. E tu sabes como por vezes os homens precisam de um empurrãozinho...
- Eu sei minha querida, mas não quero ser aquela mãe metediça. Nunca me meti na vida dele e não é agora que o vou fazer! - respondeu a sua amiga.
- Então não te metas como só tu te sabes não meter!!! - a resposta de Marta foi pronta e provocou uma risada geral entre as quatro.
O empregado percebeu que se tratava de mais um acontecimento qualquer das suas vidas e que devia ser mais uma história fantástica, com um rasgo de loucura como as que tinha ouvido até ao momento.
- Diga-me jovem, se você amasse loucamente uma pessoa mas ainda não tivesse dado por isso? E se fosse demasiado orgulhoso para o reconhecer? Ou depois de o reconhecer, se ainda assim fosse demasiado teimoso para o admitir? O que acha que as pessoas à sua volta deviam fazer? - perguntou-lhe a velha senhora Beatriz, inclinando-se para a frente pronta a escutar o que ele tinha para dizer.
Um rasgo de curiosidade invadia-lhe o olhar e o empregado sentiu-se um pouco baralhado. Havia demasiadas coisas a pesar e não ia conseguir dar uma resposta imediata...
- Posso ir pensando um pouco sobre esse assunto? Não sei se lhe consigo dizer de imediato se apreciaria uma mãe intrometida ou não. Quero dizer, era bom um empurrãozinho mas por outro lado acho que não deveria aceitar muito bem se este fosse demasiado óbvio...
- Vá pensando meu jovem, e enquanto isso vou-lhe contar a minha história.
A animação das conversas que se faziam ouvir na esplanada baixaram de tom, naquele entardecer caloroso e pintado em tons dourados, e toda a gente se preparou para a ouvir.
- Bem, depois de ter saído de um pequena aldeia para uma cidade grande como era Lisboa e de ter caído no recinto da faculdade em pleno primeiro dia de aulas, achava que conseguiria sobreviver a tudo. Durante esses quatro anos fui uma das mais destemidas do grupo, a par com a Eugénia e a Francisca. Quando acabámos o curso, eis que me vi completamente perdida na vida. Regressar a uma aldeia onde viviam menos pessoas que no dormitório das raparigas parecia-me o mais absoluto dos horrores, mas foi o que fiz.
Dei por mim a morrer lentamente, no meio de uma população envelhecida, onde nada acontecia.
Depois de ter terminado o curso com uma média brilhante, a minha rotina diária passava agora pela lida da casa e por cuidar dos dois pirralhos da minha irmã mais velha.
Passaram-se dois anos nisto e finalmente não aguentei. Numa noite em que estava de facto cansada demais para pensar no que estava a fazer, deixei toda a gente deitar-se e rumei ao meu quarto. Abri a mala de viagem que continuava guardada debaixo da minha cama desde que tinha regressado a casa dois anos antes e arrumei a minha roupa e alguns dos meus pertences. Depois fui ao pote da cozinha onde a minha mãe costumava ter algum dinheiro guardado e tirei o suficiente para a passagem do autocarro até Lisboa. Sabia que lhe ia fazer falta, mas também sabia que talvez um dia me conseguisse perdoar.
Abri a porta sem fazer barulho e preparava-me para sair, quando ouvi uma voz atrás de mim.
"- Onde pensas que vais?"
Era a minha irmã. Tinha-me esquecido que o meu cunhado estava bêbedo demais para sair do sofá e que eles tinham ficado lá a dormir.
Nessa altura senti o chão a fugir-me debaixo dos pés. Foi como respirar o ar puro da liberdade e de repente ter grilhões a fecharem-se à frente dos meus olhos...
Parei e voltei-me para trás, com as lágrimas quase a saltarem-me dos olhos, mas respirei fundo e tomei coragem para lhe responder.
"- Vou-me embora Amélia e não me podes impedir!"
Para minha surpresa a minha irmã abriu um sorriso e disse-me simplesmente:
"- Estava a ver até quando ias aguentar..."
Nessa altura o chão fugiu-me mesmo debaixo dos pés. Esperava tudo da Amélia menos esta reacção! Ela, a professora da escola primária da aldeia, mãe de família, moça dedicada ao seu marido sem olhar para mais ninguém a vida toda...como é que ela me poderia compreender e saber o que eu estava a passar?
A minha irmã abraçou-me e eu deixei cair as lágrimas que tinha estado a segurar. Ela agarrou-me depois na mão e puxou-me para dentro. Sentou-me à mesa e começou a ferver água para o chá. E depois de nos servir duas chávenas de chá fumegante e reconfortante, a minha irmã Amélia falou.
"- Sabes Beatriz, tu és uma aluna brilhante. Tinhas tudo na vida para ser uma jornalista de sucesso e fazer uma carreira. Porque raio não ficaste tu na cidade? Achavas realmente que ias conseguir trabalhar aqui? Era esse o teu objectivo quando saíste para tirar o teu curso? Foi para isso que queimaste as pestanas e te mataste a trabalhar durante aqueles anos? Para acabares como a mãe e a criares os meus filhos?
Não Beatriz, tu sabes que a tua vida não poderá ser nunca aqui na aldeia...
Hoje, depois de uma festa de aniversário do pai recheada de velhos e dos seus filhos em idade casadoira, percebeste finalmente que não aguentas mais, certo?"
Apenas fui capaz de acenar afirmativamente. Não porque estivesse emocionada, mas porque a atitude dela me tinha deixado sem palavras. E então a minha irmã continuou.
"- Sabes que durante algum tempo ponderei não voltar. Mas no meu caso a situação era diferente. Eu ia voltar para ensinar aqui na escola, não ia voltar para tomar conta da casa com a mãe. E depois havia o Eduardo, que ia voltar porque os negócios da família estão todos por aqui. Não havia como não voltar para casa e hoje dou graças por isso porque sou muito feliz.
Mas tu não tinhas nada que te fizesse voltar. Porque o fizeste?"
Nessa altura simplesmente respondi a verdade. E a verdade é que não sabia! Todas as minhas amigas tinham voltado para casa e para as suas vidas e eu simplesmente não pensei em ficar sozinha na cidade grande. E também nunca pensei em ficar tanto tempo na aldeia. A verdade é que o tempo fora passando e eu nunca mais tinha conseguido libertar-me daquela vida. Fosse por comodidade, fosse por qualquer outra razão, nunca tinha tido uma motivação forte para sair dali. Mas naquela noite, depois de perceber que o meu pai tinha organizado aquela festa de aniversário propositadamente para que os amigos e seus respectivos filhos me pudessem conhecer, foi o ponto de viragem. Simplesmente não me via naquela vida durante mais tempo.
Lembro-me que já era muito tarde. Eu tinha trabalhado o dia todo e a noite toda na casa e na cozinha para que tudo estivesse perfeito na festa do meu pai. Isso e o chá estavam a deixar-me extremamente sonolenta, especialmente depois de me ter passado a adrenalina da fuga eminente.
A minha irmã disse-me então:
"- Anda, vamos dormir. Amanhã é Domingo e a familia estará toda reunida. Vamos fazer as coisas como deve ser."
Estou grata à minha querida Amélia até hoje. Graças a ela não cheguei desamparada à grande cidade como aconteceu a muitas outras mulheres.
No dia seguinte ela ajudou-me a falar com os meus pais. Ao contrário do que eu pensava, eles apoiaram a minha decisão de sair de casa para a cidade de Lisboa. Mas não podiam deixar-me sair sem a mínima garantia que iria viver em boas condições e sem trabalho.
Também ficou insituído que enquanto as condições ideais não estivessem garantidas eu iria trabalhar noutra coisa qualquer para fazer um "pé de meia" que me permitisse aguentar durante algum tempo.
Como qualquer boa mãe com uma filha em idade de casar, também a minha tinha começado a fazer o meu enxoval. Assim, passou-se ainda mais um ano até que estivessem reunidas as condições básicas para o meu regresso a Lisboa.
Nessa altura falei com a Eugénia e o António que me ajudaram a encontrar uma casa com uma renda em condições de a poder pagar. É claro que nessa altura estava muito longe de saber a realidade em que a nossa amiga vivia, porque nunca deixou transparecer nada. Na realidade, que me lembre também nunca estivemos sozinhas. Ou com o marido ou com a sogra, a minha querida amiga vinha sempre acompanhada. Mas mesmo assim, nunca deixou de me ajudar.
Entre o meu pai e o meu cunhado, ambos com carro já naquela época, arrumei as bagagens e rumei a uma nova vida. A minha mãe ficou comigo durante essa primeira semana e a Eugénia e a sogra também vieram para me ajudar a instalar. Éramos quatro mulheres a trabalhar dentro de casa: limpámos, esfregámos, arrumámos móveis, fizemos cortinas...
Quando penso nessa semana, sinto imensas saudades. A vida era tão simples e contentávamos-nos com pouca coisa. O que interessava era ter um mínimo de conforto.
Ao fim dessa semana, o António tinha-me arranjado um emprego. Curioso como me ajudou tanto e fez tanto mal à minha amiga, a sua esposa, a que dizia tanto amar...enfim...conforme dizia, arranjou-me emprego no escritório de um advogado seu amigo, que estava a precisar de uma assistente.
Não posso dizer que fosse o emprego que idealizara, mas ele era um senhor muito bondoso e pagava-me muito bem. Passei lá os anos seguintes, até que, uns meses antes da morte da Eugénia o meu pai faleceu. O Dr. Tavares, meu patrão, deixou-me ir durante dois meses à aldeia para poder tratar de tudo e apoiar a minha mãe naqueles primeiros tempos difíceis. Mas eis que antes da minha partida ele vem com uma proposta que me deixou de novo com os sentidos alerta e com vontade de fugir, como naquela noite em que decidira sair de casa: o meu bondoso patrão pediu-me em casamento!
O empregado de mesa abriu um sorriso rasgado e riu-se baixinho enquanto comentava:
- Ora deixe-me adivinhar: com mais 20 anos que você, brilhantina no cabelo, bigode que se molha na sopa e solteiro sem lhe conhecer uma única mulher.
Beatriz lançou uma gargalhada bem disposta.
- Quase, meu caro. De facto o Dr. Tavares era viúvo, mas quanto ao resto o retrato é esse, sem tirar nem pôr!
- E o que lhe respondeu? - perguntou a rapariga do jovem casal.
- Eu gostava muito dele, sabem? Muito mesmo. Mas porque o considerava um segundo pai. Foi sempre um bom amigo, mas nunca teria sido o amante por quem ansiava. Por uma questão de respeito, e também para ganhar tempo e coragem, disse-lhe que de momento não me sentia em condições de lhe responder por causa do forte abalo que sofrera com a morte do meu pai. Mas assegurei-lhe que ia pensar na sua proposta com toda a seriedade e carinho. No próprio dia arrumei a bagagem e apanhei o autocarro para a minha aldeia e, pela primeira vez em anos, apeteceu-me enfiar a cabeça no buraco e de lá não mais sair!
Precisamente quando me preparava para voltar a Lisboa e ao trabalho, chegou a notícia da morte da Eugénia. Posso dizer-vos que a minha amiga me salvou a vida, sabem?
Acreditem ou não, estava tão miserável e solitária que me passou pela cabeça aceitar a sua proposta. Depois a Eugénia morreu e lemos os seus diários. Lá, ela dizia que algumas das supostas reuniões onde o António ia depois do jantar eram em casa do seu amigo Tavares. Ela sabia que havia álcool e mulheres à mistura e descrevia ao pormenor tudo o que o António dizia com as suas bebedeiras, imediatamente antes de lhe começar a bater e a violar.
Somei dois mais dois. O Tavares seu amigo era o Dr. Tavares, meu patrão, o homem que me tinha feito uma proposta de casamento desapaixonada como se de um contrato se tratasse. Inicialmente não quis acreditar. Ele tinha sido sempre tão bondoso comigo! Sempre me tinha ajudado em tudo!
- O que é que você fez com essa informação? - perguntou o cavalheiro de olhos azuis.
- A única coisa que poderia fazer: fui ao escritório dele na semana seguinte e despedi-me depois de recusar educadamente a sua proposta de casamento. - um sorriso matreiro apareceu no seu rosto - E depois vinguei-me!
Ouviram-se algumas risadas ao longo da esplanada, sinal que a conversa estava de novo a ser atentamente escutada. O empregado do bar já nem se esforçava por fingir que estava a trabalhar e continuava encostado à porta de saída para a esplanada de onde conseguia ouvir o relato de Beatriz.
Beatriz continuou a contar a sua história.
- Bem, como estão recordados, aqui a Madalena conseguiu por esses dias a colocação num dos principais jornais nacionais. Com a ajuda do tal ex-namorado da ex-colega de trabalho dela, e de mais alguns colegas do meio jornalístico, eis que pusemos em prática um plano para apanhar o Dr. Tavares em flagrante delito no deboche e na depravação. Ele, que era um advogado de renome e muito respeitado na sociedade lisboeta, ia ser alvo de uma emboscada! A história saiu no jornal e foi um escândalo na altura. 
O cavalheiro de olhos azuis abriu muito a boca, com ar de espanto e admiração.
- Eu lembro-me dessa história! Lembro-me perfeitamente disso, porque ele era advogado de um tio meu e nós chegámos a jantar com ele lá em casa. E houve uma coisa que nunca me saiu da cabeça: o ódio de estimação com que a minha irmã lhe ficou até ao dia em que a notícia apareceu nos jornais! Ela nunca me quis contar o porquê desse ódio de estimação, mas agora começo a entender alguma coisa. Pensando bem, acho que sei mesmo o que terá acontecido...
O empregado de mesa aproximou-se e deu uma palmadinha ternurenta na mão da velha senhora.
- Acho que muitas mulheres lhe agradeceram, mesmo não se tendo sabido de onde veio a denúncia.
A velha senhora sorriu de uma forma serena, como se a sua missão de vida se tivesse cumprido naquele dia e a paz a tivesse acompanhado desde então. Quando falou, dirigiu-se inicialmente ao cavalheiro do olhar azul como o mar, mas depois voltou a falar para todos.
- Ainda bem que pude ajudar uma só pessoa que seja. Não o fiz para ter fama ou reconhecimento. Mas de um certo modo senti-me muito feliz por ele não poder voltar a fazer mal a mais ninguém. Foi quase como se tivesse conseguido vingar a Eugénia, a sua morte estúpida e todo o esforço que fez para nos fazer chegar a sua mensagem. Foi também uma forma de lhe agradecer. Porque com os seus diários e as suas revelações ajudou-me a não ir parar à sua própria vida. Quem sabe se não teria tido um destino como o seu?
- Então e depois, o que aconteceu a seguir? Você ficou sem emprego e de novo sem meio de subsistência... - perguntou o rapaz do jovem casal.
- Bem, na noite em que a notícia saiu no jornal, a edição esgotou logo às primeiras horas da manhã. O director do jornal quis conhecer a fonte da noticia e o tal rapaz que tinha arranjado emprego à Madalena apresentou-me. Acabei por começar a trabalhar no dia seguinte, na secretária ao lado da minha amiga. Mas acabei por me especializar em não estar por lá.
- Como assim?
- Bem, eu não tinha marido, não tinha filhos, não tinha ninguém que me prendesse. E o meu espírito aventureiro foi aguçado quando conheci o John, um correspondente nosso em Inglaterra. Quando o conheci fiquei apaixonada pelo seu espírito aventureiro, pela sua paixão pela vida e pelas pessoas.
Muitas vezes o jornalismo consegue raiar um pouco a espionagem e, depois da minha história com o Dr. Tavares, fui muitas enviada com o John para cobrir acontecimentos internacionais de extrema importância. Mesmo quando as coisas ainda não eram públicas ou "oficiais", geralmente já lá estávamos. Hospedávamos-nos em hotéis, como se fossemos um casal em viagem de férias e assim conseguíamos "farejar" as notícias como nenhum outro.
- Espere! - interrompeu de novo o cavalheiro de olhos azuis - Você está a falar do John Carpenter? O famoso correspondente de guerra?
Beatriz suspirou com um misto de saudade e tristeza.
- Sim, dele mesmo.
- Mas ele não morreu num grave acidente de viação na União Soviética?
Madalena acariciou a mão da amiga e foi ela quem respondeu.
- Oficialmente essa é a versão da história que é contada a quem não sabe a verdade. Estávamos em plena Guerra Fria e o John e a Beatriz era suposto irem como casal em viagem. Mas a União Soviética tinha olhos e ouvidos em todo o lado e o John era extremamente conhecido a nível internacional. Foi-lhe permitida a entrada no país, mas já não o deixaram sair. Por várias vezes a sua voz se tinha insurgido contra a o regime russo e isso valeu-lhe uma morte dolorosa e brutal. Felizmente que conseguimos retirar de lá a Beatriz a tempo.
- Foi a escolha mais difícil que tive que fazer em toda a minha vida. Quando os militares o levaram, soube instintivamente que já não voltaria a vê-lo. O plano inicial era formarmos um casal, mas recebemos algumas informações preocupantes e então decidimos viajar separados. Eu iria fazer uma cobertura inofensiva, sobre a cultura e hábitos do país, uma matéria de cariz mais feminino e menos político. Mal sabiam eles que eu era o backup do John. Todas as informações eram emitidas em duplicado. Ele ficava com uma cópia e eu com outra. No dia em que o levaram, eu estava mesmo quase a chegar ao pé dele. Consegui disfarçar a tempo e escapar aos olhos dos militares. Mas só soube o que lhe tinha acontecido mais de uma semana depois.
A partir daí jurei abraçar a sua missão de vida e continuar a dar voz aos mais desfavorecidos.
- Mas os planos saíram-te furados... - interrompeu a sua amiga Inês com um sorriso matreiro - ...e a "camisinha" também!
- Eu e o John éramos amantes. Isso nunca foi segredo para ninguém. Acho que fizemos faísca desde o primeiro momento em que nos vimos. Mas sermos pais não estava nos nossos planos de vida... Mais uma vez o destino mostrou-se matreiro. Ainda não tinha acabado de enterrar o John quando descobri que estava grávida.
- Caramba! Então e depois? - perguntou o empregado de mesa.
- Bem, depois de um momento de choque inicial, resolvi ter esta criança. Achei que era uma forma de conseguir prolongar a vida do John de alguma forma. O nosso filho é o seu maior legado, independentemente de todo o trabalho que fez ao longo da vida. Durante os primeiros anos foi preciso muita ajuda das minhas amigas para que pudesse continuar a ir de viagem. Nessas alturas o André tinha que ficar em casa de uma delas. Depois de uma boa dose de culpa inicial, descobri que ele de facto adorava estes "acampamentos" em casa das tias emprestadas. Isso fez com que me conseguisse concentrar efectivamente na cobertura das histórias que estava a fazer no momento.
Acho que no fundo devia mesmo agradecer ao Sr. Tavares por me ter proporcionado uma vida tão abençoada!
A gargalhada foi geral. 
- E o que lhe aconteceu? - quis saber a rapariga do jovem casal.
- Bem, confesso que lhe perdi o rasto, mas consta-se que terá ido para uma cidade do interior.
O sol não passava agora de uma ténue mancha alaranjada ao fundo do horizonte e a brisa que vinha do mar tinha arrefecido ligeiramente. Mas ali naquela esplanada permanecia uma espécie rara de calor humano, que passava das quatro velhas senhoras para a audiência em seu redor.
- E já me sabe dar a resposta à minha pergunta meu caro jovem? - perguntou Beatriz ao empregado de mesa.
- Não. Acho que vou mesmo precisar de mais algum tempo...
- Temos todo o tempo do mundo meu querido. E ainda lhe falta ouvir a minha história... - respondeu-lhe Inês com um sorriso misterioso.

(continua)
 

 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho: parte 4 - "Remédio Santo! - Madalena"

(continuação)

Marta fechou os olhos ainda com um sorriso ao canto da boca, fruto da recordação da história mais marcante da sua vida. Inspirou o cheiro da maresia a apreciou o espectáculo magnífico proporcionado pelo pôr-do-sol.
- A Francisca teria apreciado isto. Ela adorava a praia, principalmente ao entardecer. Espero que, onde quer que esteja, ainda seja possível continuar a apreciar o pôr-do-sol...
A senhora que se chamava Inês acariciou-lhe o braço e nenhuma delas conseguiu proferir qualquer palavra durante alguns momentos.
O empregado de mesa tinha ido servir mais um pequeno grupo de amigos que entretanto tinha chegado.
- Olhe lá, porque raio está um copo naquela mesa com seis dentaduras lá dentro? - perguntou-lhe baixinho um dos membros desse grupo, cheio de curiosidade. 
- É uma longa história. - respondeu ele sorrindo. - E agora, se me dão licença, vou acabar de ouvi-la...
O empregado regressou à mesa das quatro senhoras, que tinham entretanto retomado a conversa e voltou a sentar-se. Reparou que o grupo que tinha acabado de servir tinha ficado de olho na mesa das senhoras, tal como o resto dos clientes que se encontravam na esplanada.
- Ora. onde íamos nós? - perguntou-lhes.
- A Marta já terminou as suas desventuras com o Alberto. Resta apenas dizer que não ficou muito mais tempo na sua vila natal. Pediu guarida à tia até arranjar o seu próprio canto, fez as malas e bateu com a porta à mente tacanha dos seus conterrâneos.
- E foi o melhor que pude fazer! Arranjei um trabalho em Lisboa e resolvi que não ia mais ter que depender de ninguém para garantir a minha própria subsistência. Por isso não voltei a querer relações que envolvessem morar junto. Descompliquei a minha vida, porque os casamentos dão trabalho meu jovem, e tenho sido extremamente feliz assim.
- Bem, acho que posso contar a minha parte da história. - respondeu a senhora que se chamava Madalena.
Todas sem excepção riram baixinho.
- Oh, e que bela história é a tua minha querida... - disse-lhe a sua amiga Inês com um tom sarcástico.
O empregado chegou-se mais para a frente, pronto para ouvi-la e para mergulhar num mundo completamente diferente.
A senhora que se chamava Madalena bebeu mais um pouco de vinho antes de começar a contar a sua história. Pousou lentamente o copo sobre a mesa e começou então a falar.
- Terminei o curso e voltei para a minha cidade natal. O meu pai conhecia o director do jornal local e arranjou-me lá emprego. Mas apesar das minhas boa notas no curso de jornalismo, nunca me permitiu escrever uma só linha para que fosse publicada. O máximo que me era permitido escrever eram as suas cartas e missivas, já que a designação profissional de "assistente de direcção" era o equivalente a "secretária com um misto de empregada doméstica".
Mas os tempos não era ainda muito fáceis no mundo laboral para as mulheres. Os nossos salários eram um pouco inferiores, apesar de já então sermos mais competentes do que muitos dos nossos colegas.
- Ámen a isso também minha querida! - brindou a amiga Inês.
- Houve um dia em que, após as festas de Carnaval da cidade, um dos meus colegas que fazia reportagens de rua, faltou ao trabalho. Tinha ido cobrir o desfile e, aparentemente, tinha celebrado com demasiado entusiasmo.
Em desespero de causa, o director pediu-me para que escrevesse então a reportagem sobre esta matéria, já que eu tinha sido a única a estar presente no local, e que não tinha outra matéria qualquer em mãos.
Agarrei a oportunidade com unhas e dentes, pensando que era a oportunidade de entrar no mundo do jornalismo "a sério" e escrevi uma matéria fantástica. No dia em que foi publicada no jornal, corri de manhã a mostrar o artigo ao meu pai e ia desmaiando quando vi que o artigo estava assinado pelo jornalista que não tinha comparecido ao trabalho naquele dia para o escrever.
O meu pai era um homem fantástico, com uma mente muito avançada para a altura em que viveu. E apesar de ser amigo do director, não gostou nem um pouco do que ele me fez.
Arregaçou as mangas e pôs-se a percorrer todos os seus contactos para ver se me conseguia emprego noutra redacção qualquer, mas sem sucesso. Já mais calma, falei com ele e disse-lhe que não tinha assim tanta importância e voltei ao meu posto de trabalho como era habitual.
Mas não me esqueci do que me tinham feito. O meu colega veio falar comigo, deu-me umas palmadinhas de agradecimento nas costas e voltou para o seu lugar. O director chamou-me e explicou-me que aquela coluna tinha sido sempre daquele colega e blá. blá, blá, não ouvi nem metade do que me disse então.
Eu tinha uma rapariga minha amiga de infância que trabalhava no refeitório da redacção do jornal. Tinhamos andado juntas na escola e também ela tinha ouvido falar do que me tinham feito e não tinha ficado nem um pouco satisfeita. E pelo que tinha ouvido das poucas colegas jornalistas que ali trabalhavam, elas também não.
Um dia, depois do trabalho, juntámo-nos  todas e elaboramos um plano maquiavélico...
- E até hoje não acredito como foram capazes de executá-lo! - interrompeu-a Marta.
Madalena riu-se baixinho até as lágrimas lhe começarem a escorrer pelo rosto.
- Se queres saber, eu também não, mas a nossa juventude dá-nos o privilégio da inconsequência e nos anos 70 não havia qualquer preocupação com a saúde...
- Mas afinal o que é que vocês aprontaram? - perguntou o senhor que estava sentado ao lado do cavalheiro dos olhos azuis.
- A minha mãe tinha um remédio fantástico que desde miúda a vira preparar para dar ao meu pai, para o tratar da sua prisão de ventre crónica. A dose certa fazia o intestino funcionar. Uma gota a mais e era vê-lo a correr para a casa de banho em grande aflição. Era algo eficaz mas que exigia um certo cuidado.
Uma das colegas fez anos na semana a seguir e comprámos uma garrafa de espumante para celebrar ao final do dia na redacção. O director abriu a garrafa e passou-a à Bernardete para que servisse o espumante nos copos. Estavam todos distraídos com o bolo de aniversário que a aniversariante distribuía e eu fui ajudar a Bernardete com o espumante, passando os copos a todos os colegas.
Foi uma celebração e pêras e foi toda a gente feliz e contente para casa. As mulheres mais do que os homens e não, meu caro, tamanha alegria não se devia ao álcool no sangue...
O empregado olhou para ela, com ar incrédulo e abriu muito a boca com ar de espanto, enquanto era atingido pelo evidente desfecho da história.
- Suas diabretas, deram laxante ao director do jornal?
Madalena sorriu abertamente, com um brilho travesso no olhar.
- E a todos os colegas machos da redacção!
A gargalhada foi geral. Quem observasse de longe aquele estranho grupo tão heterogéneo ficaria intrigado com um esplanada em peso a rir.
O empregado do bar desistiu de fingir que estava a trabalhar e juntou-se a eles. Puxou uma cadeira e sentou-se de frente para o bar, para ver quando chegasse algum cliente.
- Bem vindo de volta meu caro. Mais um intervalo? - perguntou-lhe a senhora que se chamava Inês.
- Não. Mas não resisti a vir ouvir o que se estava por aqui a contar... - respondeu, sentindo-se de repente um pouco embaraçado.
- Tens a certeza de que vais aguentar? Aqui a Sra. Madalena acabou de dar laxante a todos os homens que trabalhavam com ela no jornal... - disse-lhe o colega.
O empregado do bar abriu um sorriso rasgado.
- A sério? Conte-me tudo!
- Bem, o resultado disso - recomeçou Madalena - foi que todos eles ficaram "de cama" no dia a seguir, com uma estranha virose que só atacou os homens. Uma redacção de um jornal não pára e como tal, assumimos as rédeas do serviço com tamanha competência, que o director ficou deveras impressionado.
Eu tive a oportunidade de, durante dois dias, assinar os meus próprios artigos e o dono do jornal veio pessoalmente felicitar-nos pela forma profissional como trabalhámos. 
- E foi promovida a jornalista? - perguntou a rapariga do jovem casal.
- Não minha querida. O homem era um pulha e não deu o braço a torcer, apesar de eu lhe ter feito a vida negra a partir de então... Entretanto, o dono do jornal tinha um filho mais ou menos da minha idade. Um playboy cuja profissão era supervisionar os negócios do pai tão bem quanto lhe gastava a fortuna! Chegou-lhe aos ouvidos o meu caracter obstinado e quis saber mais sobre a assistente do director que lhe fazia a vida negra mas de quem ainda assim ele não queria abrir mão.
Acho que ficámos fascinados um pelo outro. Éramos ambos inteligentes e mordazes, com uma mente engenhosa. Ele começou a andar atrás de mim e em breve começámos a namorar. Acredito piamente que então ele me amasse à sua maneira e eu também. Tinhamos uma vida social activa e cheia de gente bonita e bem sucedida. Só que com o passar do tempo não veio nem o pedido de casamento nem a oportunidade de chegar ao tão ambicionado mundo do jornalismo "a sério"...
Até que houve um dia que me fartei. No fim de mais uma das nossas festas de arromba, eis que resolvi confrontá-lo. Parecia que lhe tinha feito a maior ofensa do mundo! Ao que parece, ficou a pensar que eu estava com ele só pela oportunidade de ser promovida e de ainda poder vir a dar o golpe do baú...
Não demorou nem dois dias a dar-me com os pés, da sua vida e do jornal. Obrigou o director a despedir-me e desapareceu do mapa.
Nessa altura percebi que com ele se tinha ido toda a minha vida social e as falsas amizades, assim como a minha oportunidade de subsistir sozinha na vida. E foi então que a Eugénia morreu.
Eu estava um caco e quando nos reunimos e resolvemos fazer o pacto de sermos felizes. No dia a seguir fui bater à porta de um dos principais jornais do país para pedir emprego. Um golpe de sorte fez com que o ex-namorado de uma das minhas ex-colegas de trabalho me reconhecesse. Ele tinha ficado a saber do que se tinha passado no meu antigo emprego - desde a usurpação do meu trabalho até ao modo como tinha sido dispensada - e intercedeu por mim. Arranjei emprego, primeiro com matérias muito modestas, mas que me permitiram ir conquistando o meu lugar.
Nunca mais consegui dar o meu coração em pleno a um homem. O que me restou daquela relação intensa foi o medo de me voltar a entregar. Assim, quando pressentia que as coisas iam ficar demasiado sérias, pisgava-me! Até que há cerca de uns quinze anos conheci o meu actual companheiro de vida. Continuamos a não ser casados e oficialmente nem moramos juntos, mas na verdade somos inseparáveis. 
- E como o conheceu?
- Atropelei-o!
- Ora conte lá...
- Bem, essa seria outra longa história meu querido, mas para a abreviar deixe-me que lhe diga apenas que eu ia de bicicleta para o trabalho e ele atravessou sem olhar, precisamente no momento em que eu estava a olhar para o lado para cumprimentar uma amiga... Fiquei tão atrapalhada e nervosa que ele, que não sofreu mais do que umas nódoas negras nas pernas, me arrastou para uma pastelaria para me dar um chá para ver se me acalmava. E nunca mais nos separámos desde então.
O empregado do bar sorriu, tentando imaginar quem seria o homem corajoso para domar o coração daquela mulher furacão há tantos anos.
- E porque nunca casaram? - perguntou o cavalheiro de olhos azuis.
- Quem disse que não casámos meu caro?
Madalena apontou para o seu próprio coração e continuou:
- Aqui sou só dele e ele é só meu. Não preciso de um papel que ateste isso mesmo! E se não moramos oficialmente juntos é porque assim conseguimos manter acesa a faísca que a monotonia de um casamento destrói. 
- Mas ele nunca a pediu em casamento? - perguntou o rapaz do jovem casal.
Madalena sorriu docemente.
- Todos os dias das nossas vidas. E todos os dias lhe respondo que não.
- Mas porquê? Quero dizer, para além da papel passado e assim, porque nunca pensou em aceitar?
- Porque assim continuamos a esforçar-nos. Eu esforço-me para que ele me peça todos os dias em casamento. Ele esforça-se para que eu finalmente o aceite.
A rapariga sorriu, num rasgo de entendimento. 
As quatro senhoras brindaram de novo e desta vez todas as pessoas à sua volta as acompanharam. 

(continua)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho: parte 3: "O caminho para a felicidade - Marta"

(continuação)

- Senhoras, permitem-me que me junte a vós?
Era o empregado do bar que finalmente estava na hora da sua pausa.
- Se aguentar ouvir-nos a falar, então seja muito bem vindo! - disse a senhora que se chamava Beatriz, com um sorriso travesso no olhar, que não passou despercebido ao empregado do bar.
- Minhas senhoras, pela audiência que já conquistaram à vossa volta, parece-me que ouvir-vos falar não será o problema. O pior será ter que sair daqui. - respondeu ele com uma piscadela de olho enquanto puxava uma cadeira para se sentar.
- Muito bem. Estávamos nós a contar que a morte da nossa amiga Eugénia serviu como um catalisador para as nossas próprias vidas. - disse a senhora que se chamava Beatriz, enquanto olhava um pouco à sua volta e percebia que as pessoas que tinham chegado se tinham sentado bem próximas e estavam realmente a ouvir a história.
- É verdade. Estávamos no início dos anos 80. Todas morávamos longe. Só tínhamos contacto através das cartas que íamos escrevendo ou de telefonemas, que eram esporádicos, porque nem todas tinham telefone e porque as chamadas eram caras. Apenas sabíamos que cada uma de nós tinha seguido o seu rumo e no dia em que nos juntámos de novo percebemos que nenhuma de nós tinha querido deixar transparecer o que realmente se passava. Acho que era a forma de conseguirmos manter a ilusão para nós próprias, percebe? Quando não se admite para nós, fica mais fácil manter a fachada para quem está de fora. E assim fomos criando uma vida de ilusão, com uma grande carapaça que se desmantelou por completo na altura em que nos reencontrámos e nos olhámos nos olhos pela primeira vez em muitos anos. - começou a senhora que se chamava Marta.
Bebeu mais um golo de vinho e depois continuou, enquanto pousava lentamente o copo sobre a mesa.
- Como lhe disse nunca casei. Mas quando nos reencontrámos estava noiva de um moço da minha terra. Ele era um excelente rapaz. Trabalhador. Honesto. Teria sido um bom marido, sem dúvida.
- O que lhe aconteceu? - perguntou um dos membros do grupo de quatro amigos.
- Oh, nada, não lhe aconteceu nada! - respondeu, dando ênfase a esta última palavra.
E as quatro riram à gargalhada, deixando a audiência completamente baralhada.
- Eu explico. O moço já andava atrás de mim desde a escola primária. Eu nunca lhe tinha achado realmente piada mas era das poucas moças que conseguia conversar com ele. Fomos crescendo e seguimos rumos um pouco diferentes, já que rapazes e raparigas não tinham aulas na mesma sala. No entanto, os intervalos eram comuns e as brincadeiras na rua também. Assim, ao longo da nossa adolescência o Alberto e eu tornámo-nos amigos. Eu sabia que ele ainda tinha uma paixoneta por mim, mas para além da minha amizade não havia nada da minha parte que lhe pudesse dar a mínima esperança.
Ele não era bem-parecido, não era charmoso, não tinha nenhum atributo em especial, mas era muito bom rapaz. O genro que qualquer mãe de então sonhava para a sua filha. E a minha mãe não era diferente das outras, coitadita.
Sempre me perguntei porque razão ele não se juntava muito aos outros rapazes para brincar e preferia passar o tempo comigo e com as minhas bonecas, mas pensei que era apenas por timidez  e tentava não pensar muito no assunto.
Os anos foram passando, nós fomos crescendo e eu fui para a faculdade, bem longe de casa. Tinha uma tia em Lisboa e fiquei instalada em casa dela durante os quatro anos do curso. Solteira e habituada a estar longe da terra, a minha tia era um pouco mais permissiva do que a minha mãe. Posso dizer que estes foram anos de ouro!
Quando voltei à minha terra, depois de quatro anos de loucura, eu tinha deixado de ser a moça simples e ingénua. E virgem.
O Alberto voltou à carga. No fundo não tinha mudado em nada durante a minha ausência e nada tinha mudado para ele. As raparigas lá da terra continuavam a evitá-lo e os rapazes também não lhe ligavam nenhuma. E ele não fazia qualquer esforço para mudar isso. Mas assim que percebeu que eu tinha vindo para ficar de vez tornou a andar atrás de mim.
Eu continuava sem sentir nada por ele e depois do que tinha vivido nos últimos quatro anos, de toda a gente que conhecera, ele era a pessoa mais chata do mundo...
- Então porque ficou noiva dele? - perguntou o cavalheiro de olhos azuis.
- Acho que entre a insistência do Alberto e a da minha mãe as minhas forças de resistência acabaram ali mesmo. Eu tinha começado a trabalhar e era tão dedicada ao que fazia, sempre a tentar provar as minhas capacidades, que a minha vida social caiu a pique. Com o tempo, as minhas amigas de lá foram casando, tendo filhos e eu continuava solteira e sem perspectivas de arranjar um candidato a marido que agradasse aos meus pais.
- É claro que ias fazendo tentativas pelo meio... - interrompeu a senhora que se chamava Madalena, com uma sonora gargalhada.
- Oh, se ia! E quando finalmente me resignei e aceitei a proposta de casamento do Alberto, sempre pensei que tudo o que ainda não sentia por ele apareceria quando finalmente tivéssemos sexo.
O cavalheiro de olhos azuis riu baixinho com um brilho travesso no olhar, como se isto lhe lembrasse a sua própria juventude, mas não a interrompeu.
- E foi isso que aconteceu? - perguntou o empregado do bar, olhando de novo para o relógio pois queria saber o fim desta história antes de regressar ao serviço.
- Bem, conforme eu dizia há pouco, não aconteceu nada. O Alberto continuou igual a ele próprio: cortês, cavalheiro, educado, respeitador...e passaram-se quase dois anos sem que tentasse mais do que um beijo quando chegava ao pé de mim e outro quando se ia embora. Os beijos que eu fazia os meus bonecos darem em criança eram menos castos do que os dele! O máximo que consegui do Alberto foi que a sua mão tocasse na minha e foi porque eu tomei a iniciativa. Dois anos nisto e começava a ficar angustiada. Porque quando não temos uma vida sexual activa e não sabemos como é, não é assim tão grave meu rapaz. O pior é começar e gostar do que se faz,  e nisso os tempos não mudaram nem éramos assim tão diferentes!
Até que um belo dia, numa noite quente de final de Verão, depois do baile da festa lá da terreola, o Alberto me vai levar a casa. Nós morávamos numa casa que ficava um pouco fora do centro da vila, e como tínhamos muitos animais, ao redor havia imensas dependências: um pequeno celeiro, estábulos, galinheiros...
Eis que nessa noite, aproveitando o facto de a minha mãe ter vindo mais cedo e de a nossa chegada ter sido discreta, empurrei o Alberto para dentro do celeiro. Pespeguei-lhe uns beijos mais elaborados, dei-lhe uns amassos, rocei-me até mais não e...nada! O pobre coitado, depois da surpresa inicial, ainda tentou corresponder de alguma forma, mas simplesmente não foi capaz.
Como devem calcular, foi uma grande frustração para mim. Ao princípio pensei que a culpa era minha e fiquei completamente devastada. Mas quando ele fugiu daquele celeiro fui atingida por um raio de luz: o meu noivo era impotente!
Como é que eu podia pensar em continuar aquele noivado? Eu não o amava, não ia ter sexo na minha vida, mas como raio ia eu dizer à minha mãe que o meu noivo não conseguia ter uma erecção? Era tabu falar destas coisas! Se a minha mãe soubesse que me tinha tentado enrolar com o Alberto ainda lhe iria agradecer o facto de não ter conseguido consumar o acto! Estava completamente perdida.
Entretanto, ele arranjou uma desculpa esfarrapada sobre andar "cheio de trabalho fora dali" e passou um mês sem me aparecer à frente. Não que me tivesse importado, mas começava a ser tema de conversa nos cafés. E num desses zum-zuns ouvi uns boatos...
Entretanto soube da morte da Eugénia. Meti uma semana de férias e rumei a Lisboa, onde voltei a pedir guarida à minha querida tia, que me recebeu de braços abertos.
Quando nos juntámos as cinco de novo e lhes contei o que tinha acontecido e o boato que tinha ouvido, parecia que me tinha saído uma tonelada de cima. Acabámos a noite a rir à gargalhada às custas deste episódio. A  pobre Francisca ainda não conseguia acreditar como raio tinha eu conseguido entrar numa situação daquelas e tentou arranjar mais de mil maneiras suaves para eu conseguir dizer à minha mãe que o noivado tinha acabado!
Entretanto quando resolvemos fazer o nosso pacto rumo à felicidade, decidi que ia ter que fazê-lo que qualquer forma e que não havia volta a dar ao assunto. Assim, parti rumo à minha terra, com a minha auto-estima de volta, assim como a minha vontade de viver. Entrei em casa e mal tive tempo de pousar as malas. Chamei a minha mãe e disse-lhe que não ia mais casar com o Alberto.
Pobre mãe, que desatou num pranto. Mas eu estava decidida e percebi que o pranto não passava de chantagem emocional. Então perguntei-lhe "A mãe quer ter netos?", ao que ela respondeu "Mas é claro que quero! Que raio de pergunta é essa?". Então disse-lhe simplesmente: "Pois do Alberto não seriam e por favor não me peça para entrar em pormenores!".
A minha mãe não me perguntou mais nada. Secou as lágrimas e levou dois segundos a fazer o luto pelo suposto genro perfeito. Até hoje não sei o que disse ao meu pai, mas ele nunca mais perguntou pelo Alberto. E o pobre Alberto, depois de eu lhe dar com os pés, enfiou-se num seminário e tomou votos.
- Não me diga que foi para padre?
- Digo pois. Ainda hoje é o padre da paróquia lá da aldeia! Dizem as más linguas que foi pelo desgosto. Pois eu digo que naquela noite descobri que o Alberto é gay.Os tempos eram outros e nem pensar em "sair do armário".
Ouviu-se uma gargalhada geral.
- E você, depois dele nunca mais teve nenhuma relação que fosse para durar? - perguntou o rapaz do jovem casal.
- Oh, claro que sim meu caro. A melhor relação que podemos ter, primeiro é que temos connosco próprios e depois é a da amizade. E estas amigas enchem-me até à alma...
- Eu queria dizer, com homens.
- Eu sei - respondeu-lhe Marta com uma piscadela de olho - e tive algumas relações, se é que lhes podemos chamar assim, mas sempre tive o juizo de os mandar ir comer e lavar as camisas a casa das mães.
- Ámen a isso! - responderam as outras em coro em mais um brinde.
O empregado do bar levantou-se pois estava na hora de voltar ao seu posto de trabalho. Levava o coração cheio de uma fantástica história de vida e deu consigo a desejar não ter movimento ao balcão para se escapar de mansinho e não perder o resto que ainda estava por contar.

(continua)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho - parte 2: "A Promessa"

- Estávamos no fim do Verão quando as aulas começaram. Lembro-me tão bem como se fosse hoje, porque estava morta de medo! Sabe jovem, os meus pais moravam numa pequena aldeia e era o meu primeiro dia longe de casa. Eu era a menina da mamã e tive direito a uma excelente educação, o que era pouco habitual na altura. Mas a faculdade era longe e de repente vi-me sozinha no meio de uma grande cidade - a velha senhora, que exibia uma longa cabeleira negra com uma madeixa prateada na franja riu baixinho - e só o recinto da escola tinha mais gente do que a minha aldeia! Eu estava assustadíssima, mas absolutamente radiante.
- E foi então que te apanhámos! - disse outra, soltando uma sonora gargalhada, sendo seguida pelas outras.
- Literalmente. É que tenho a tendência para ficar descoordenada quando estou nervosa e foi assim que em pleno recinto cheio de gente dei um grande, grande tralho!
O empregado pareceu surpreendido com o uso desta expressão de calão, que parecia não combinar com o ar quase majestoso e doce da senhora, e percebeu que por detrás desta aparência havia mesmo muito para descobrir.
- Naquela altura em que a vimos no chão tivemos todas a mesma reacção - continuou outra delas - e parece que fomos atraídas por um íman, tal foi a rapidez com que a rodeámos, apanhámos e disfarçámos a situação.
- Oh céus, eu estava vermelha que nem um tomate, quase com as lágrimas nos olhos tal era a vergonha, mas estas miúdas salvaram-me de boa! 
- Em primeiro lugar certificámo-nos que ninguém a tinha visto. Depois ficámos a olhar umas para as outras, já que não nos conhecíamos de lado nenhum, e percebemos quão estranha era a situação.
- Ninguém lhe perguntou se se tinha magoado com a queda? - quis saber o empregado.
- Não!
A gargalhada foi geral e espelhava bem o que se tinha passado na altura.
- Éramos jovens meu caro e o orgulho e a dignidade faziam feridas maiores no ego do que um joelho raspado!
- A partir desse momento tornámo nos inseparáveis. Foram quatro anos da mais pura loucura e amizade, recheados de aventuras e desventuras.
- Mas eis que chegou o fim do curso e acabámos por nos separar.
O empregado notou que apesar de estarem as quatro a contar a sua história, ainda assim pareciam falar a uma só voz.
- Mas porquê? - perguntou- Se eram assim tão próximas, o que se passou?
- Nada de especial meu querido, simplesmente voltámos a casa. Olhe bem para nós. Somos de uma geração diferente da sua. Todas saímos das nossas aldeias, vilas ou cidades. Não havia meios de comunicação como vocês, jovens, os conhecem quase desde que nasceram. Não tinhamos computadores, internet, telemóveis... Tudo era mais distante e complicado. 
- Mas deixaram de se ver e de se falar por completo?
- Não, não por completo, mas as notícias começaram a escassear com o passar dos anos. Só nos conseguíamos comunicar por carta ou por telefone, mas no fundo acho que quando estamos na década dos vinte estamos tão preocupadas em construir "uma vida" que não nos apercebemos que a vida acontece, quer nós queiramos quer não! Durante a adolescência e o início da idade adulta, muitas vezes rebelamo-nos contra aquilo que a sociedade nos impõe como sendo "politicamente correcto" ou "socialmente aceite", mas quando chegamos ao vinte e poucos anos, saímos do mundo dos estudos e entramos no mundo do trabalho, temos tendência para pensar que aí começa a nossa vida "a sério" e então temos tendência a esquecer tudo o que ficou para trás.
A velha senhora serviu-se de mais um copo de vinho e bebericou um pouco antes de continuar.
- Eu casei e tive dois filhos. Um casal.
- Eu nunca casei. Graças a Deus tive juízo antes de cometer o maior erro da minha vida.
- Eu fui casando várias vezes ao longo dos anos até que finalmente acertei.
- Eu nunca casei, mas tive um filho de um homem fantástico.
As quatro ergueram as taças ao mesmo tempo e falaram a uma só voz.
- E quando nos reencontrámos voltámos a viver.
O empregado olhou para um jovem casal que tinha acabado de se sentar. Pediu licença quando se levantou, mas assegurou-lhes que voltava num instante para acabar de ouvir a história.
Acabou de servir os dois grandes cafés com natas que eles tinham pedido e voltou a sentar-se junto das senhoras.
- Mas o que aconteceu?
- Uma tragédia.
- Então?
- O nosso grupo era de seis. A Inês (que sou eu), a Marta, a Beatriz, a Madalena - disse apontando para si própria e seguidamente para cada uma das amigas - e depois havia a Francisca e a Eugénia. Duas delas já não estão entre nós, uma delas há mais de vinte anos.
A velha senhora de ar majestoso com a madeixa no cabelo segurou na mão da que se chamava Inês e foi ela quem continuou a história.
- A Eugénia era uma das mais divertidas do grupo. Moça de boas famílias, criada na alta sociedade do Porto, veio estudar para Lisboa, onde o pai tinha familia e alguns negócios. Ao pé da família era a moça mais casta do mundo, mas entre amigos era a alma da festa. E foi assim que conheceu o António.
- Em pouco tempo tornaram-se inseparáveis. Unha com carne. Um só respirava se estivesse próximo do outro. - continuou a que se chamava Madalena. - A Eugénia era uma moça linda: alta, ruiva, com uns grandes olhos verdes brilhantes de alegria e umas pernas lindas de morrer! O António era um moço que combinava bem com ela: alto e lindo. Parecia um actor de fotonovelas! Formavam um casal e pêras.
- Soubémos que se casaram mal acabámos o curso. O António era cerca de dois anos mais velho que nós, terminou o curso primeiro e logo começou a trabalhar para o pai da Eugénia. Como também vinha de boas famílias não houve qualquer impedimento a esta união. Como lhe dissemos, os anos foram passando e, embora continuássemos a ter notícias umas das outras, estas eram cada vez mais esporádicas. 
- Mas com os anos todas nós nos apercebemos que o brilho da Eugénia ia esmorecendo cada vez mais. As cartas perderam a vida de outrora. Já não contavam aventuras e segredos, como se a sua vida se resumisse às rotinas de casa e aos filhos. Logo ela, uma das alunas mais brilhantes do curso, para quem se previa uma brilhante carreira profissional, resumir a sua vida a fraldas e fogão!
- A voz também deixou de ser igual. Aquele timbre alegre, com uma gargalhada fácil, perdeu-se. Quando falei com ela pela última vez, foi para me contar que esperava o quarto filho. A alegria na sua voz era forçada, quase como se estivesse a ler um guião, quase como se se convencesse a si própria de algo. E foi então que tudo aconteceu.
A senhora que se chamava Inês interrompeu o seu discurso.
- Perdão meu caro, mas acho que estão ali mais uns clientes à espera.
O jovem pediu licença, ainda com um ar meio absorto, pois encontrava-se completamente mergulhado numa época distante, onde em vez de gel se usava brilhantina, numa sociedade que oscilava perigosamente entre o socialmente correcto e a insanidade total.
Levantou-se e dirigiu-se à mesa de trás, onde um grupo de quatro amigos na casa dos trinta anos acabava de se sentar. Anotou o pedido e dirigiu-se ao bar para ir buscar os cafés e os pastéis de nata.
O seu colega dirigiu-se a ele com um tom meio zombeteiro, piscando o olho:
- Não me digas que estás outra vez na conquista? Não achas que estas são um pouco velhas demais para ti?
O empregado sorriu e respondeu:
- Hoje não sou eu que estou a conquistar. Hoje fui completamente conquistado. Quando fores fazer o teu  intervalo junta-te a nós e vais perceber...
Voltou então para a mesa dos quatro amigos e serviu-lhes tudo o que tinham pedido. Após se certificar que não precisavam de mais nada, voltou a sentar-se junto das quatro senhoras e pediu-lhes que continuassem.
- Mas afinal o que aconteceu à vossa amiga Eugénia?
- Morreu dois dias depois de termos falado. - os olhos de Inês encheram-se de lágrimas mas nem uma lhe escorreu pela face - A versão oficial é que terá caído das escadas e como começou a sangrar, teria pegado no carro para ir ao hospital. Mas nós sabemos que não foi isso que realmente aconteceu...
- Não? Então como morreu ela?
- A Eugénia tinha uma irmã mais nova, muito ligada a ela. No dia em que me ligou para dar a notícia, só quase uma hora depois conseguir perceber uma única palavra, tal era o pranto em que se encontrava. Foi um choque imenso como deve calcular.
- Precisamente dez anos depois do último dia de aulas foi o seu funeral. E só nesse dia nos reencontrámos todas.
- Chorámos o dia todo, uma vezes da alegria de nos revermos, mas sobretudo da enorme tristeza de termos perdido uma irmã do coração.
- Depois do funeral juntámo-nos com a irmã da Eugénia e ficámos a conversar mais um pouco junto à campa. Os três filhos da nossa amiga afastaram-se com a avó materna e o pai. A filha do meio era a cara da mãe.
- A irmã dela contou-nos que a Eugénia era extremamente infeliz. Foi como se nos tivessem atirado um balde de água gelada em cima, mas acho que lá no fundo já desconfiávamos que alguma coisa não estava bem. A vida que ela levava simplesmente não combinava com a jovem fogosa e cheia de vida que tinhamos conhecido em tempos!
- Afinal o António não era o príncipe encantado que parecia. Mal casaram, proibiu a Eugénia de trabalhar e confinou-a a cuidar da casa e dos filhos que lhe ia fazendo. A irmã dela confidenciou-nos que o fogo da Eugénia acabou quando, após ter tido o primeiro filho, ainda não estava recuperada do parto e ele a violou. Foi o princípio do fim da sua vida. A partir daí foi um descalabro total e do desrespeito moral começou a haver abusos fisicos. Violência, violação...tudo o que lhe possa passar pela cabeça. A única coisa que a mantinha de cabeça erguida eram os filhos.
- Constou-se que ela tentava  tomar medidas contraceptivas, mas sabe como as coisas eram naquela época. E o António tinha olhos e ouvidos em todo o lado! Os ciúmes tornaram-no obsessivo e violento. A pobre Eugénia não podia sair de casa sozinha, não podia escrever-nos sem que ele aprovasse a carta, não podia ligar-nos, não podia atender o telefone na sua ausência...E como cão de guarda, lá estava a mãe dele.
- Nós sabíamos que havia uma razão muito forte para nunca termos gostado dela!
- Pobre coitada! Mas afinal o que aconteceu no dia em que ela morreu? - perguntou o rapaz do casal que se tinha sentado na mesa ao lado. Só depois se apercebeu que estava a ouvir a conversa alheia e a meter o nariz onde não era chamado e ficou subitamente engasgado. - Desculpem, mas não resisti.
As quatro senhoras e o empregado desataram a rir à gargalhada e o colega do bar mirou-os com curiosidade, olhando para o relógio de pulso para ver se ainda faltava muito tempo para a sua pausa.
- A Eugénia perdera o fogo mas não a astúcia que a caracterizava. - disse a que se chamava Beatriz. - Só a irmã sabia de tudo o que se passava, mas não havia grande coisa que pudesse fazer para ajudá-la. Os tempos eram outros e só de pensarem em divórcio era um escândalo. Como não podia falar a viva voz, foi mantendo diários, que escrevia ás escondidas, nos raros momentos em que estava sozinha. Criou um esconderijo secreto lá em casa onde os guardava religiosamente ao longo dos anos. A irmã entregou-nos os diários a nós, pois essa era a vontade da Eugénia e disse-nos que no dia em que ela ligara à Inês para lhe contar que estava grávida, o António lhe batera porque percebera a falta de entusiasmo dela ao telefone. Para ele tudo era motivo para desconfiança e o pretexto ideal para lhe bater. Naquele dia bateu-lhe com tanta raiva que o filho mais velho se pôs no meio. Então bateu nele também. E depois foi-se embora. Foi a gota de água! A Eugénia tinha uma mala de emergência já feita. Agarrou nela e nos três filhos, derrubou a sogra que a tentava impedir de sair e pôs-se a caminho do Porto. O António tinha-a ensinado a conduzir na faculdade, mas depois de casarem quase nunca tinha conseguido pegar no carro, a não ser quando ele estava demasiado bêbedo para trazer a familia de volta para casa. Estava uma noite chuvosa e a estrada não tinha o piso nas melhores condições. Nervosa e ferida, começou com uma enorme hemorragia que se foi agravando até acabar por desmaiar. Esvaiu-se em sangue ali mesmo dentro do carro, à frente das crianças.
- Pobre coitada! Que sofrimento deve ter sido... - comentou a rapariga do jovem casal.
Uma das velhas senhoras sorriu pacificamente e a jovem notou que todas sem excepção exibiam um misto de ternura e de orgulho no olhar.
- Nós gostamos de pensar nela não como uma coitada, mas como a nossa Joana D'Arc! Uma heroína, já que deu a sua vida mas salvou as nossas...
O empregado franziu o sobrolho como se estranhasse aquelas palavras.
- Sim meu jovem, ela salvou-nos a todas. Como lhe dissemos, a irmã da Eugénia entregou-nos os seus diários. Ela escrevia-os para nós, em forma de cartas, de conversas, ela fazia-nos as suas confidências mais profundas. Juntámo-nos para os lermos em conjunto e chorámos o dia todo. Depois percebemos que era um grande erro continuarmos separadas e sem nos contactarmos durante tanto tempo.
- Naquele dia contámos tudo das nossas vidas umas às outras e foi então que fizemos uma descoberta surpreendente...
- E que descoberta foi essa?
- Que, apesar do que espelhávamos para fora, e até umas para as outras, éramos todas profundamente infelizes.
Nessa altura o empregado do bar aproximou-se deles, trazendo uma bandeja com mais alguns cafés, que serviu a mais um pequeno grupo que tinha acabado de se sentar.
O empregado pediu desculpa aos clientes, que eram habituais, mas estes não se importaram nem um pouco que ele não o tivesse visto.
- Não tem problema. Vejo que está em boa companhia. - respondeu um deles, piscando o olho que tinha uma cor azul cor do mar na direcção das senhoras.
O empregado sorriu e disse:
- Senhoras, acabaram de derreter mais um coração.
Elas riram com gosto e brindaram na direcção deles, em jeito de cumprimento.
- Mas e então, o que aconteceu depois?
- Bem, digamos que fizemos uma promessa a nós mesmas: a de que a morte da Eugénia não seria uma tragédia, mas um hino à vida. A de que a sua luta não teria sido em vão. E que os apelos que nos fazia ao longo das páginas dos seus diários seriam o início de algo de novo nas nossas vidas: o caminho para a felicidade.

(continua)







quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho - parte 1: "Até à bengala!"

Estava uma tarde de Domingo fantástica, bem característica do final de Verão.
O sol brilhava, fazendo com que a água do mar tomasse tons de prata e fogo, em suaves ondulações ritmadas. Soprava uma brisa suave que atenuava o calor abafado que ainda se fazia sentir.
O empregado de mesa dirigiu-se às quatro senhoras que tinham acabado de se sentar lá fora na esplanada.
- O que vão desejar? - perguntou.
- Queremos uma garrafa de vinho verde bem fresca por favor. - pediu uma delas.
- Muito bem. As senhoras vão desejar mais alguma coisa? 
- Não. Traga-nos apenas a garrafa de vinho verde mas precisamos de um copo a mais.
- Aguardam mais uma pessoa? Querem que coloque mais uma cadeira na mesa? - perguntou solicitamente o empregado.
- Não obrigada, já não esperamos mais ninguém para se sentar connosco. - o olhar da velha senhora foi trespassado por um rasgo de tristeza, que logo se transformou num doce sorriso. - Mas continuamos a querer mais um copo por favor. Mas esse copo tem que ser grande,
- Certamente. Volto já com o vosso pedido.
O empregado dirigiu-se à zona do bar para fazer o pedido ao seu colega.. Enquanto aguardava que estivesse tudo pronto para levar para a mesa das quatro senhoras, encostou-se ao balcão a observá-las. Havia algo nelas que o atraía, como se de um íman se tratasse.
Aparentemente não teriam nada de especial à primeira vista, mas delas se emanava uma aura luminosa, uma sensação de paz e de tranquilidade que não conseguia explicar.
Estavam todas na casa dos sessenta anos, mas a idade não lhes levara a beleza. Só então reparou que todas se vestiam de branco e deu consigo a perguntar-se porquê.
O colega estendeu-lhe a bandeja com o pedido, mas teve que o chamar para que ele o notasse, pois estava completamente absorvido por aquelas quatro mulheres.
Dirigiu-se então para a mesa, onde colocou a garrafa de vinho ao centro e distribuiu os copos vazios pelas senhoras. O quinto copo, colocou-o junto à garrafa, antes de servir o vinho nos copos.
As senhoras agradeceram e ele retirou-se. Como havia pouco movimento, não se afastou muito. Tinha curiosidade em saber porque tinham elas pedido um copo a mais.
Ficou boquiaberto quando todas sem excepção retiraram das suas malas quatro pequenas dentaduras e mais duas de dentro de uma pequena caixa de cetim e as enfiaram no copo grande a mais que tinham pedido. Em seguida, uma delas agarrou na garrafa e despejou o vinho dentro do copo das dentaduras. Todas sorriram comum rasgo de saudade no olhar. 
Em seguida, ergueram os copos num brinde, onde falaram a uma só voz:
- Até à bengala!
E desataram a rir à gargalhada em seguida.
A curiosidade do empregado não lhes passou despercebida. Estavam acostumadas a dar nas vistas sempre que estavam juntas.
- Quer saber porque temos este ritual meu rapaz? - perguntou uma delas.
- Confesso que estou curioso, sim. - respondeu ele.
- Sente-se. É uma longa história, que começa com seis jovens raparigas que se conheceram no primeiro dia de aulas da faculdade e que conseguiram manter uma amizade fantástica ao longo das suas vidas. Fizeram um pacto entre elas em como seriam amigas até à bengala e que, mesmo depois de velhas, quando já não pudessem beber álcool por causa do excesso de medicamentos da idade, ainda assim mergulhariam as suas dentaduras em vinho verde. Duas delas já não estão entre nós. Fomos levar uma amiga até à sua ultima morada terrena hoje de manhã, mas Deus tem sido generoso connosco meu querido. Deu-nos uma saúde de ferro, não tomamos medicamentos, não usamos bengala e não nos falta nem um dente. E isso tem-nos servido de desculpa para continuarmos a celebrar as nossas vidas todos os dias. Por isso fazemos este ritual quando estamos juntas. É uma maneira de nos lembrarmos como temos sido felizes e de matarmos as saudades de quem já partiu da Terra, mas continua sempre viva nos nossos corações.
O empregado foi percorrido por um misto de emoção e curiosidade. Ao mesmo tempo que via alguma tristeza e dor nos seus olhares, também percebeu que por detrás disso deviam estar histórias de vida absolutamente fabulosas e resolveu seguir o conselho da velha senhora. Olhou em volta, como que pedindo permissão a um chefe que não se encontrava por ali, puxou uma cadeira e preparou-se para as ouvir. E esta seria a história mais fabulosa que ouviria ao longo de toda a sua vida...

(continua)