sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Desafios, balanços e pensamentos profundos...

Sabemos que a vida nos lança desafios todos os dias. Sabemos que para evoluirmos e aprendermos, precisamos estar despertos e conscientes de quem somos. Para que a vida flua e nos sintamos felizes, muitas vezes acabamos por ter que tomar decisões difíceis e, muitas vezes incoerentes aos olhos dos outros.
Mas a pior coisa que podemos fazer é mentirmos a nós próprios, porque por mais que tentemos pintar a realidade de cor-de-rosa, mais cedo ou mais tarde a tinta começará a estalar e o brilho a desaparecer.
Ser verdadeiro é muitas vezes difícil e pode magoar as pessoas de quem se gosta. Mas eventualmente um dia será bem mais compensador. Não há nada que pague a leveza da Alma e a nossa Paz de Espírito.
É com este pensamento que vos deixo neste fim de ano, quando também eu estou fechada para balanço.
Namasté!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

O Caminho - Aprender

A vida é feita de caminhos e escolhas. Cada uma acarreta consequências cujo desfecho nunca poderemos prever.
Quando estamos numa encruzilhada, muitas vezes escutar o coração é muito difícil. Sentir o que se deve fazer é muito difícil.
Avançar com os dois pés firmes é muito difícil.
A única certeza que teremos será a que vem, por vezes anos mais tarde: é a de que se não avançarmos, nunca vamos evoluir; se não tentarmos, nunca vamos saber; e se nunca errarmos, nunca vamos aprender.

domingo, 23 de setembro de 2012

Se D. Afonso Henriques saísse da tumba...


Sou a contribuinte nº210388994. Uma cidadã anónima, sem nome sonante ou rosto marcante. Sou apenas mais uma no rebanho que vive o seu dia-a-dia na correria que é a vida numa cidade.
Mas não sou igual a todos os outros. Eu sou eu. Eu sinto, eu amo, eu vivo. Ou melhor, sobrevivo o melhor que posso ou que consigo.
Tenho uma família, como tantos outros milhares de portugueses. E tal como esses outros tantos que nos rodeiam, faço parte de uma sociedade.
Hoje uma vez mais olhei para a terra que me rodeia e os olhos quase se inundaram de gratidão, pelo simples facto de a minha miopia ainda assim ma permitir ver e apreciar a sua beleza.
Percebi que se D. Afonso Henriques pudesse caminhar entre nós neste exacto momento, daria umas boas espadeiradas a muito boa gente.
Porque o sonho que ele teve de tornar um Condado num Reino, naquilo que se define hoje como país, perdeu-se da sua essência original. Aquilo que se pretendia era um território vasto, povoado, unido sob a mesma bandeira, onde se partilhassem ideais. Naquele tempo, apesar da ambição da conquista, o que se amava era o chão e as riquezas que este lhes proporcionava. Era a terra que lhes dava tudo, desde o prestígio ao alimento, desde o abrigo ao sustento.
Hoje em dia tudo mudou. O país é o mesmo, mas a sua essência já não. Os que hoje o governam, tiram-lhe a Alma, num desassossegado jogo de cadeiras, onde se enchem as panças e as bolsas sem qualquer pudor. Pisa-se a terra, mas em vez de dela brotarem flores, racha-se o chão e sangram os rios. Calam-se as aves e fogem os animais para paragens longínquas, porque à sua volta aquilo que era o nosso país está moribundo!
Quando o exemplo que devia vir de cima não chega, eis que começa a fervilhar o terror nas cabeças do povo. Daquele povo que, como eu nada sabe e nada compreende sobre jogos políticos e financeiros, sobre esquemas e ardis montados, por detrás das mentiras contadas com máscaras inexpressivas no rosto.
E depois do terror vem a indignação, quando se vê que esta terra que tudo tem para nos dar, na verdade tem os seus recursos mal aproveitados e mal geridos, por algumas pessoas a quem se chama «Doutor» sem que de nenhum deles venha remédio ou cura para o mal do país.
Somos todos portugueses. Filhos de uma nação valente e imortal. Então, porque não levantam os nossos governantes o esplendor de Portugal?
Nós, os do povo, que exibimos os nossos canudos obtidos com lágrimas e suor enquanto brandimos as mãos aos céus, perguntamos o porquê de tudo isto? O que fizemos nós senão estudar e trabalhar, esforçando-nos ao máximo para ter uma vida, o que fizémos senão pagar impostos sem garantias ou regalias, e agora eis que chega esta classe de letrados incultos em relação ao verdadeiro valor da vida, acenando com contas para pagar, de cujas dívidas não me lembro de ter contraído?
Basta! Basta de não se dar o devido valor à vida! De se desvalorizar as pessoas e desmoralizar a nação! Basta de sofrermos tanta falta de respeito!
Eu sou eu. Um indivíduo. Mas faço parte de um todo. De uma sociedade, que se funcionar como uma máquina bem oleada, fará com que cada um desempenhe a sua função e contribua para que o país se mantenha e se sustente, sem quaisquer esquemas ou subterfúgios, sem que os que menos têm sejam estrangulados e privados de uma vida digna e confortável para que os que mais têm continuem a enfiar mais dinheiro nos bolsos.
E como o exemplo costuma vir de cima, é por isso que, quando alguns patrões vêm o abuso que o próprio poder político exerce impunemente sobre a sociedade, lhes seguem os passos de imediato. E assim a nossa sociedade, em vez de ser como a tal máquina bem oleada, torna-se uma bola de neve, que acumula porcaria ao mesmo tempo que varre tudo à sua frente por onde passa.
Amo o chão que piso com todas as minhas forças. Continuo a maravilhar-me com as cores, os cheiros, os sons. Continuo a ser embalada pelo som da maresia e pelos contos acerca de tempos idos, quando Portugal era um país, vasto e glorioso. Não me quero ir embora. Não quero ter que me ir embora!
Quero ter condições de cá viver, de continuar a sonhar todos os dias sem pensar em impostos e taxas! Quero ensinar as minhas filhas a fazerem parte da terra e a amarem-na tanto como eu. Quero que elas possam crescer a falar a sua lingua e a sonhar em português.
É hora de olharem para cima, senhores. Tirem os olhos dos vossos umbigos! Se lá em cima ainda assim não encontrarem inspiração, então voltem-se para dentro e perguntem à vossa consciência, se têm condições para continuarem a trabalhar como até agora. E se mesmo assim a vossa consciência nos vos der resposta, espero que ao menos olhem por cima do ombro. Não vá D. Afonso Henriques ter saído da tumba para vir de espada em riste a correr atrás de vós, expulsando-os do território que conquistou a troco de sangue e suor, forçando-os a emigrar.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Alma minha

Há uma angústia que me consome.
Alguma coisa que me incomoda.
Que me corrói a alma e deturpa o pensar.
As brumas adensam-se à medida que o tempo passa.
Não há sol que me ilumine, não há lua que me guie, não há verde campo que me alegre.
Apenas um fogo que me queima o olhar.
Ardo pelo mundo dentro e caminho pela vida fora.
Algo me falta, que não me deixa ficar completa, una com o que me rodeia!
E é uma insana loucura esta de procurar fora
O que sei que não é fora que vou encontrar...
Passos largos. Passos curtos.
Mas não deixo de caminhar!
Procuro-te em todos os recantos da Terra.
Em todos os que os meus olhos ainda vêm.
Procuro, procuro e volto a não te encontrar...
Cansada, por fim, volto para dentro
E num raro e são momento
Vejo-te fugazmente no espelho, olhando-me desse outro lado de mim.
Lanço-me de novo à tua procura, mas desta vez sem sair do lugar.
Respiro fundo, levando-me para dentro.
Acho-te em mim,
E choro por medo de ainda assim não te encontrar.
Busco-te e o meu coração bate quando te sinto,
Só então torno a respirar.
Deito tudo cá para fora,
E peço-te que me acompanhes, para finalmente descansar.
Só então estou feliz e completa.
Eu em ti, tu em mim.
Duas partes que se unem para não mais se separar!
E apesar de toda a busca me ter deixado dorida
É com alegria que sinto finalmente
a minha Alma, que subiu de novo à tona
Depois de anos dormente e sem vida
Para não mais me abandonar...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

"Somos todos um"

Sabemos que há algo muito acima de nós quando vemos as nossas vidas por um fio e, de repente, há alguma coisa que nos puxa de volta e nos coloca de novo nos eixos.
É algo que se assemelha ao despiste de um carro que vai embater contra o tronco que se avizinha bem à nossa frente, mas de repente há algo que nos trava desse embate bem no último momento.
E aí temos duas opções: ou nos vitimizamos, ou aproveitamos para pensar e reflectir.
Eu escolhi a segunda opção.

***

Havia uma voz na minha cabeça. Essa voz dizia-me que este dia não ia ser igual aos outros, que, de alguma forma, estava destinado a ser diferente.
Andara com esta sensação estranha desde que me levantara da cama, mas  achava que era loucura da minha cabeça. Pela enésima vez consultei a minha agenda, como se o pensamento na minha mente conseguisse formar por magia um compromisso tão extraordinário, que explicaria tal pensamento. Mas uma vez mais constatei que nada acontecia. Tal como nada lá estava.
Tinha a agenda vazia. Nada de compromissos de trabalho, nada de vida social.
Reflecti um pouco sobre isto. Era de facto um dia diferente, já que em todos os outros dias da minha vida, tinha sempre a agenda cheia e uma data de mensagens no telemóvel para responder.
Na realidade, eram quase todos contactos de trabalho. Pouco tempo me restava para a vida social e esta constatação fez-me abrir a agenda na página dos contactos.
“Trabalho, trabalho, trabalho…”
Todos os números lá registados era contactos profissionais, alguns dos quais de pessoas que nunca tinha visto pessoalmente.
Bem, certamente teria alguma coisa pessoal na agenda do telemóvel. Mas não, na verdade não tinha.
Busquei em todos os recantos da minha memória, tentando recordar todos os nomes que faziam parte da minha infância e da minha adolescência, mas foi com muito custo que consegui fazê-lo. A lista que começara a rabiscar no papel continuava demasiado curta. Passei para os nomes das pessoas que conhecera na universidade. Certamente que me recordaria de mais, já que não se haviam passado assim tantos anos. Mas ainda assim, a lista continuava reduzida.
Parecia que me encontrava numa redoma de vidro, num casulo que me separava de tudo e de todos à minha volta e que me impedia de ver os outros, mas sobretudo de ser vista.
Olhei pela janela, mas a vista que tanto amava desapareceu por completo dos meus olhos. Era como se, de repente, se tivesse feito noite sobre o Tejo e a cidade ficasse imersa no mais escuro breu de todos os tempos.
“Caramba, terei ficado cega?”
Mas não. Como se alguém subitamente tivesse ligado o interruptor da luz, senti-me completamente encandeada e a cegueira passou por completo, como se a aurora de um novo dia raiasse no horizonte, mesmo à frente dos meus olhos.
“Mas o que raio está a acontecer comigo? Se não fiquei cega, fiquei louca, só pode!”
A luz à minha volta ficou normal e de novo me vi sentada na cadeira do escritório a olhar pela janela.
E então, foi como se de repente uma descarga eléctrica percorresse o meu corpo e me acordasse para a vida.
“Porra, estar sozinha não tem piada. É como ter um tesouro enorme e não partilhar uma única moeda com o mendigo que nos pede ajuda para comer!”
É que uma coisa é gostarmos de um pouco de solidão, de preservarmos a nossa independência. Outra coisa é isolarmo-nos do mundo e dos outros. Perdermos as experiências, as trocas, a divindade que há em cada um de nós. Perdermos a oportunidade de nos darmos aos outros. Perdermos a amizade e, sobretudo o Amor.
Levantei-me num ápice e comecei a abrir as gavetas da secretária, uma a uma, retirando de lá todos os papéis.
“Que se lixe a arrumação! Onde está? Onde está?!”
Deixei-me cair no chão, chorando e sentindo-me no mais absoluto desespero, até que de repente, bem na minha frente, espreitando de dentro de um grande envelope cor-de-rosa, apareceu o que procurava.
“A minha agenda antiga! Está aqui, encontrei-a! Obrigada meu Deus.”
Segurei-a junto ao peito, fechei os olhos, inspirando profundamente num alívio absoluto e, pela primeira vez nessa manhã, senti o ar a inundar os meus pulmões. Folheei as suas páginas e ali estavam todos os nomes de todas as pessoas com quem me cruzara ao longo da minha vida. A caligrafia era a minha, e podiam ver-se as sucessivas alterações nos números de telefone e nas moradas ao longo dos anos. Curioso, porque algumas delas já nem me lembrava de as ter anotado.
Sorri ao ser inundada com as recordações de cada um dos nomes. Com a forma com que cada um deles tocara a minha vida e nesse exacto momento tomei uma resolução: não voltaria a isolar-me. Não voltaria a usar o trabalho e a independência para me enfiar de novo num casulo. O Ser Humano não foi feito para ficar só. E eu não queria voltar a estar só.
Peguei no telefone para ligar à minha amiga mais antiga, aquela que fizera da minha infância uma época de delícias e foi então que tudo aconteceu.
De novo a minha visão se obscureceu e logo em seguida se encandeou com a claridade à minha volta. Sentia o meu corpo enfraquecido, mas ao mesmo tempo nunca estivera tão viva. Conseguia sentir tudo e todos ao meu redor, como se os nossos corações batessem em uníssono e os nossos pulmões respirassem ao mesmo ritmo. Conseguia cheirar todas as flores, ouvir o restolhar de todos os ramos e de todas as folhas no meio do chão.
Os meus ouvidos foram inundados de som. E, apesar de alguns barulhos mais estridentes, foi como se ao longe ouvisse uma voz melodiosa a cantar uma canção de boas-vindas.
“Consegue ouvir-me?” – perguntava uma voz insistentemente junto ao meu ouvido.
Abri os olhos e passei a mão pela cabeça, no sítio onde uma dor latejante se insinuara. Olhei para o rosto ali tão próximo do meu e respondi, surpreendentemente com uma voz mais audível do que pensara ser possível. Audível e calma.
“Melhor do que isso!” – disse-lhe com um sorriso.
Os seus olhos, de um verde tão profundo como as folhas da floresta à minha volta, iluminaram-se e sorriram de volta, embora o seu rosto me fizesse uma pergunta muda, como se as minhas palavras o tivessem deixado confuso.
“Consigo fazer mais do que ouvi-lo. Consigo escutá-lo. Consigo sentir tudo o que me rodeia! E isso faz toda a diferença.”
Ao perceber o significado das minhas palavras, a sua face iluminou-se tanto como o seu olhar e apertou-me a mão, um pouco comovido.
Olhei em redor e percebi que, naquele local onde o meu carro resvalara da estrada, se tinha juntado uma data de gente que não me conhecia de lado nenhum, só para me ajudar. E o paramédico que me socorria e me sorria de volta era um deles.
“Acho que isto lhe pertence. Pelo menos era o que segurava na mão quando a encontrámos.” – disse-me, entregando-me a minha agenda antiga.
Fiquei abismada com o que os meus olhos viam. Não mexia naquela agenda havia anos e tinha a certeza de que estava guardada num canto recôndito de uma gaveta qualquer! Como é que tinha ali aparecido? Nas minhas mãos, tinha dito ele?
“Faça-me um favor. Escreva aí o seu nome. E o de toda a gente que parou para me ajudar. Quero agradecer a todos mais tarde.”
Ele sorriu novamente e fez o que lhe pedira sem hesitar. Todas as pessoas ali presentes lhe deram o nome e contacto sem sequer questionarem o porquê do meu pedido. E isso fez o meu coração bater mais forte.
Se queria um milagre na minha vida, então Deus escreveu certo por linhas tortas.
Demonstrou-me que a sua mão está presente em tudo e todos à nossa volta e que o Ser Humano ainda é capaz de olhar à sua volta e estender a mão para ajudar o próximo.
Demonstrou-me que, sobretudo nas horas da mais pura aflição, funcionamos em rede. Todos em conjunto, na mais absoluta conexão. E é nestes momentos que os milagres ocorrem.
Somos todos um.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Quatro dentaduras e um copo de vinho: Parte 5 - "Vingança - Beatriz"

(continuação)

A esplanada estava praticamente cheia de gente. A narrativa do grupo de amigas tinha sofrido uma pausa porque o empregado de mesa andava a atender os clientes que tinham acabado de chegar.
Todos tinham curiosidade em saber porque razão tinham aquelas senhoras as dentaduras dentro dos copos e a todos sem excepção o empregado respondia com um sorriso:
- Bem, é uma longa história. Porque não ficam para ouvir?
Quando finalmente regressou à mesa do grupo das velhas senhoras, a conversa girava à volta do filho da velha senhora de ar doce e majestoso que se chamava Beatriz e que hoje era já um homem adulto e bem sucedido na vida, mas aparentemente não tão bem sucedido no amor.
- Oh, eu acho que ele está a ser parvo!  - dizia a velha senhora que se chamava Madalena.
- Bem, eu não tenho assim tanta certeza, mas quem sou eu para dizer alguma coisa? - dizia a sua amiga Marta.
Inês mantinha-se calada e pensativa, como se esta história lhe fizesse lembrar de um certo modo a sua e quando falou, fê-lo num tom suave e doce.
- Beatriz, o André é um homem feito. Foi educado por uma mulher fantástica que, apesar de ter uma vida profissional intensa e em constantes viagens, nunca deixou de o acompanhar em todas as horas da sua vida. E foi criado no meio de nós todas também. A sua sensibilidade para o mundo das mulheres está presente, mas não deixa de ser homem. E tu sabes como por vezes os homens precisam de um empurrãozinho...
- Eu sei minha querida, mas não quero ser aquela mãe metediça. Nunca me meti na vida dele e não é agora que o vou fazer! - respondeu a sua amiga.
- Então não te metas como só tu te sabes não meter!!! - a resposta de Marta foi pronta e provocou uma risada geral entre as quatro.
O empregado percebeu que se tratava de mais um acontecimento qualquer das suas vidas e que devia ser mais uma história fantástica, com um rasgo de loucura como as que tinha ouvido até ao momento.
- Diga-me jovem, se você amasse loucamente uma pessoa mas ainda não tivesse dado por isso? E se fosse demasiado orgulhoso para o reconhecer? Ou depois de o reconhecer, se ainda assim fosse demasiado teimoso para o admitir? O que acha que as pessoas à sua volta deviam fazer? - perguntou-lhe a velha senhora Beatriz, inclinando-se para a frente pronta a escutar o que ele tinha para dizer.
Um rasgo de curiosidade invadia-lhe o olhar e o empregado sentiu-se um pouco baralhado. Havia demasiadas coisas a pesar e não ia conseguir dar uma resposta imediata...
- Posso ir pensando um pouco sobre esse assunto? Não sei se lhe consigo dizer de imediato se apreciaria uma mãe intrometida ou não. Quero dizer, era bom um empurrãozinho mas por outro lado acho que não deveria aceitar muito bem se este fosse demasiado óbvio...
- Vá pensando meu jovem, e enquanto isso vou-lhe contar a minha história.
A animação das conversas que se faziam ouvir na esplanada baixaram de tom, naquele entardecer caloroso e pintado em tons dourados, e toda a gente se preparou para a ouvir.
- Bem, depois de ter saído de um pequena aldeia para uma cidade grande como era Lisboa e de ter caído no recinto da faculdade em pleno primeiro dia de aulas, achava que conseguiria sobreviver a tudo. Durante esses quatro anos fui uma das mais destemidas do grupo, a par com a Eugénia e a Francisca. Quando acabámos o curso, eis que me vi completamente perdida na vida. Regressar a uma aldeia onde viviam menos pessoas que no dormitório das raparigas parecia-me o mais absoluto dos horrores, mas foi o que fiz.
Dei por mim a morrer lentamente, no meio de uma população envelhecida, onde nada acontecia.
Depois de ter terminado o curso com uma média brilhante, a minha rotina diária passava agora pela lida da casa e por cuidar dos dois pirralhos da minha irmã mais velha.
Passaram-se dois anos nisto e finalmente não aguentei. Numa noite em que estava de facto cansada demais para pensar no que estava a fazer, deixei toda a gente deitar-se e rumei ao meu quarto. Abri a mala de viagem que continuava guardada debaixo da minha cama desde que tinha regressado a casa dois anos antes e arrumei a minha roupa e alguns dos meus pertences. Depois fui ao pote da cozinha onde a minha mãe costumava ter algum dinheiro guardado e tirei o suficiente para a passagem do autocarro até Lisboa. Sabia que lhe ia fazer falta, mas também sabia que talvez um dia me conseguisse perdoar.
Abri a porta sem fazer barulho e preparava-me para sair, quando ouvi uma voz atrás de mim.
"- Onde pensas que vais?"
Era a minha irmã. Tinha-me esquecido que o meu cunhado estava bêbedo demais para sair do sofá e que eles tinham ficado lá a dormir.
Nessa altura senti o chão a fugir-me debaixo dos pés. Foi como respirar o ar puro da liberdade e de repente ter grilhões a fecharem-se à frente dos meus olhos...
Parei e voltei-me para trás, com as lágrimas quase a saltarem-me dos olhos, mas respirei fundo e tomei coragem para lhe responder.
"- Vou-me embora Amélia e não me podes impedir!"
Para minha surpresa a minha irmã abriu um sorriso e disse-me simplesmente:
"- Estava a ver até quando ias aguentar..."
Nessa altura o chão fugiu-me mesmo debaixo dos pés. Esperava tudo da Amélia menos esta reacção! Ela, a professora da escola primária da aldeia, mãe de família, moça dedicada ao seu marido sem olhar para mais ninguém a vida toda...como é que ela me poderia compreender e saber o que eu estava a passar?
A minha irmã abraçou-me e eu deixei cair as lágrimas que tinha estado a segurar. Ela agarrou-me depois na mão e puxou-me para dentro. Sentou-me à mesa e começou a ferver água para o chá. E depois de nos servir duas chávenas de chá fumegante e reconfortante, a minha irmã Amélia falou.
"- Sabes Beatriz, tu és uma aluna brilhante. Tinhas tudo na vida para ser uma jornalista de sucesso e fazer uma carreira. Porque raio não ficaste tu na cidade? Achavas realmente que ias conseguir trabalhar aqui? Era esse o teu objectivo quando saíste para tirar o teu curso? Foi para isso que queimaste as pestanas e te mataste a trabalhar durante aqueles anos? Para acabares como a mãe e a criares os meus filhos?
Não Beatriz, tu sabes que a tua vida não poderá ser nunca aqui na aldeia...
Hoje, depois de uma festa de aniversário do pai recheada de velhos e dos seus filhos em idade casadoira, percebeste finalmente que não aguentas mais, certo?"
Apenas fui capaz de acenar afirmativamente. Não porque estivesse emocionada, mas porque a atitude dela me tinha deixado sem palavras. E então a minha irmã continuou.
"- Sabes que durante algum tempo ponderei não voltar. Mas no meu caso a situação era diferente. Eu ia voltar para ensinar aqui na escola, não ia voltar para tomar conta da casa com a mãe. E depois havia o Eduardo, que ia voltar porque os negócios da família estão todos por aqui. Não havia como não voltar para casa e hoje dou graças por isso porque sou muito feliz.
Mas tu não tinhas nada que te fizesse voltar. Porque o fizeste?"
Nessa altura simplesmente respondi a verdade. E a verdade é que não sabia! Todas as minhas amigas tinham voltado para casa e para as suas vidas e eu simplesmente não pensei em ficar sozinha na cidade grande. E também nunca pensei em ficar tanto tempo na aldeia. A verdade é que o tempo fora passando e eu nunca mais tinha conseguido libertar-me daquela vida. Fosse por comodidade, fosse por qualquer outra razão, nunca tinha tido uma motivação forte para sair dali. Mas naquela noite, depois de perceber que o meu pai tinha organizado aquela festa de aniversário propositadamente para que os amigos e seus respectivos filhos me pudessem conhecer, foi o ponto de viragem. Simplesmente não me via naquela vida durante mais tempo.
Lembro-me que já era muito tarde. Eu tinha trabalhado o dia todo e a noite toda na casa e na cozinha para que tudo estivesse perfeito na festa do meu pai. Isso e o chá estavam a deixar-me extremamente sonolenta, especialmente depois de me ter passado a adrenalina da fuga eminente.
A minha irmã disse-me então:
"- Anda, vamos dormir. Amanhã é Domingo e a familia estará toda reunida. Vamos fazer as coisas como deve ser."
Estou grata à minha querida Amélia até hoje. Graças a ela não cheguei desamparada à grande cidade como aconteceu a muitas outras mulheres.
No dia seguinte ela ajudou-me a falar com os meus pais. Ao contrário do que eu pensava, eles apoiaram a minha decisão de sair de casa para a cidade de Lisboa. Mas não podiam deixar-me sair sem a mínima garantia que iria viver em boas condições e sem trabalho.
Também ficou insituído que enquanto as condições ideais não estivessem garantidas eu iria trabalhar noutra coisa qualquer para fazer um "pé de meia" que me permitisse aguentar durante algum tempo.
Como qualquer boa mãe com uma filha em idade de casar, também a minha tinha começado a fazer o meu enxoval. Assim, passou-se ainda mais um ano até que estivessem reunidas as condições básicas para o meu regresso a Lisboa.
Nessa altura falei com a Eugénia e o António que me ajudaram a encontrar uma casa com uma renda em condições de a poder pagar. É claro que nessa altura estava muito longe de saber a realidade em que a nossa amiga vivia, porque nunca deixou transparecer nada. Na realidade, que me lembre também nunca estivemos sozinhas. Ou com o marido ou com a sogra, a minha querida amiga vinha sempre acompanhada. Mas mesmo assim, nunca deixou de me ajudar.
Entre o meu pai e o meu cunhado, ambos com carro já naquela época, arrumei as bagagens e rumei a uma nova vida. A minha mãe ficou comigo durante essa primeira semana e a Eugénia e a sogra também vieram para me ajudar a instalar. Éramos quatro mulheres a trabalhar dentro de casa: limpámos, esfregámos, arrumámos móveis, fizemos cortinas...
Quando penso nessa semana, sinto imensas saudades. A vida era tão simples e contentávamos-nos com pouca coisa. O que interessava era ter um mínimo de conforto.
Ao fim dessa semana, o António tinha-me arranjado um emprego. Curioso como me ajudou tanto e fez tanto mal à minha amiga, a sua esposa, a que dizia tanto amar...enfim...conforme dizia, arranjou-me emprego no escritório de um advogado seu amigo, que estava a precisar de uma assistente.
Não posso dizer que fosse o emprego que idealizara, mas ele era um senhor muito bondoso e pagava-me muito bem. Passei lá os anos seguintes, até que, uns meses antes da morte da Eugénia o meu pai faleceu. O Dr. Tavares, meu patrão, deixou-me ir durante dois meses à aldeia para poder tratar de tudo e apoiar a minha mãe naqueles primeiros tempos difíceis. Mas eis que antes da minha partida ele vem com uma proposta que me deixou de novo com os sentidos alerta e com vontade de fugir, como naquela noite em que decidira sair de casa: o meu bondoso patrão pediu-me em casamento!
O empregado de mesa abriu um sorriso rasgado e riu-se baixinho enquanto comentava:
- Ora deixe-me adivinhar: com mais 20 anos que você, brilhantina no cabelo, bigode que se molha na sopa e solteiro sem lhe conhecer uma única mulher.
Beatriz lançou uma gargalhada bem disposta.
- Quase, meu caro. De facto o Dr. Tavares era viúvo, mas quanto ao resto o retrato é esse, sem tirar nem pôr!
- E o que lhe respondeu? - perguntou a rapariga do jovem casal.
- Eu gostava muito dele, sabem? Muito mesmo. Mas porque o considerava um segundo pai. Foi sempre um bom amigo, mas nunca teria sido o amante por quem ansiava. Por uma questão de respeito, e também para ganhar tempo e coragem, disse-lhe que de momento não me sentia em condições de lhe responder por causa do forte abalo que sofrera com a morte do meu pai. Mas assegurei-lhe que ia pensar na sua proposta com toda a seriedade e carinho. No próprio dia arrumei a bagagem e apanhei o autocarro para a minha aldeia e, pela primeira vez em anos, apeteceu-me enfiar a cabeça no buraco e de lá não mais sair!
Precisamente quando me preparava para voltar a Lisboa e ao trabalho, chegou a notícia da morte da Eugénia. Posso dizer-vos que a minha amiga me salvou a vida, sabem?
Acreditem ou não, estava tão miserável e solitária que me passou pela cabeça aceitar a sua proposta. Depois a Eugénia morreu e lemos os seus diários. Lá, ela dizia que algumas das supostas reuniões onde o António ia depois do jantar eram em casa do seu amigo Tavares. Ela sabia que havia álcool e mulheres à mistura e descrevia ao pormenor tudo o que o António dizia com as suas bebedeiras, imediatamente antes de lhe começar a bater e a violar.
Somei dois mais dois. O Tavares seu amigo era o Dr. Tavares, meu patrão, o homem que me tinha feito uma proposta de casamento desapaixonada como se de um contrato se tratasse. Inicialmente não quis acreditar. Ele tinha sido sempre tão bondoso comigo! Sempre me tinha ajudado em tudo!
- O que é que você fez com essa informação? - perguntou o cavalheiro de olhos azuis.
- A única coisa que poderia fazer: fui ao escritório dele na semana seguinte e despedi-me depois de recusar educadamente a sua proposta de casamento. - um sorriso matreiro apareceu no seu rosto - E depois vinguei-me!
Ouviram-se algumas risadas ao longo da esplanada, sinal que a conversa estava de novo a ser atentamente escutada. O empregado do bar já nem se esforçava por fingir que estava a trabalhar e continuava encostado à porta de saída para a esplanada de onde conseguia ouvir o relato de Beatriz.
Beatriz continuou a contar a sua história.
- Bem, como estão recordados, aqui a Madalena conseguiu por esses dias a colocação num dos principais jornais nacionais. Com a ajuda do tal ex-namorado da ex-colega de trabalho dela, e de mais alguns colegas do meio jornalístico, eis que pusemos em prática um plano para apanhar o Dr. Tavares em flagrante delito no deboche e na depravação. Ele, que era um advogado de renome e muito respeitado na sociedade lisboeta, ia ser alvo de uma emboscada! A história saiu no jornal e foi um escândalo na altura. 
O cavalheiro de olhos azuis abriu muito a boca, com ar de espanto e admiração.
- Eu lembro-me dessa história! Lembro-me perfeitamente disso, porque ele era advogado de um tio meu e nós chegámos a jantar com ele lá em casa. E houve uma coisa que nunca me saiu da cabeça: o ódio de estimação com que a minha irmã lhe ficou até ao dia em que a notícia apareceu nos jornais! Ela nunca me quis contar o porquê desse ódio de estimação, mas agora começo a entender alguma coisa. Pensando bem, acho que sei mesmo o que terá acontecido...
O empregado de mesa aproximou-se e deu uma palmadinha ternurenta na mão da velha senhora.
- Acho que muitas mulheres lhe agradeceram, mesmo não se tendo sabido de onde veio a denúncia.
A velha senhora sorriu de uma forma serena, como se a sua missão de vida se tivesse cumprido naquele dia e a paz a tivesse acompanhado desde então. Quando falou, dirigiu-se inicialmente ao cavalheiro do olhar azul como o mar, mas depois voltou a falar para todos.
- Ainda bem que pude ajudar uma só pessoa que seja. Não o fiz para ter fama ou reconhecimento. Mas de um certo modo senti-me muito feliz por ele não poder voltar a fazer mal a mais ninguém. Foi quase como se tivesse conseguido vingar a Eugénia, a sua morte estúpida e todo o esforço que fez para nos fazer chegar a sua mensagem. Foi também uma forma de lhe agradecer. Porque com os seus diários e as suas revelações ajudou-me a não ir parar à sua própria vida. Quem sabe se não teria tido um destino como o seu?
- Então e depois, o que aconteceu a seguir? Você ficou sem emprego e de novo sem meio de subsistência... - perguntou o rapaz do jovem casal.
- Bem, na noite em que a notícia saiu no jornal, a edição esgotou logo às primeiras horas da manhã. O director do jornal quis conhecer a fonte da noticia e o tal rapaz que tinha arranjado emprego à Madalena apresentou-me. Acabei por começar a trabalhar no dia seguinte, na secretária ao lado da minha amiga. Mas acabei por me especializar em não estar por lá.
- Como assim?
- Bem, eu não tinha marido, não tinha filhos, não tinha ninguém que me prendesse. E o meu espírito aventureiro foi aguçado quando conheci o John, um correspondente nosso em Inglaterra. Quando o conheci fiquei apaixonada pelo seu espírito aventureiro, pela sua paixão pela vida e pelas pessoas.
Muitas vezes o jornalismo consegue raiar um pouco a espionagem e, depois da minha história com o Dr. Tavares, fui muitas enviada com o John para cobrir acontecimentos internacionais de extrema importância. Mesmo quando as coisas ainda não eram públicas ou "oficiais", geralmente já lá estávamos. Hospedávamos-nos em hotéis, como se fossemos um casal em viagem de férias e assim conseguíamos "farejar" as notícias como nenhum outro.
- Espere! - interrompeu de novo o cavalheiro de olhos azuis - Você está a falar do John Carpenter? O famoso correspondente de guerra?
Beatriz suspirou com um misto de saudade e tristeza.
- Sim, dele mesmo.
- Mas ele não morreu num grave acidente de viação na União Soviética?
Madalena acariciou a mão da amiga e foi ela quem respondeu.
- Oficialmente essa é a versão da história que é contada a quem não sabe a verdade. Estávamos em plena Guerra Fria e o John e a Beatriz era suposto irem como casal em viagem. Mas a União Soviética tinha olhos e ouvidos em todo o lado e o John era extremamente conhecido a nível internacional. Foi-lhe permitida a entrada no país, mas já não o deixaram sair. Por várias vezes a sua voz se tinha insurgido contra a o regime russo e isso valeu-lhe uma morte dolorosa e brutal. Felizmente que conseguimos retirar de lá a Beatriz a tempo.
- Foi a escolha mais difícil que tive que fazer em toda a minha vida. Quando os militares o levaram, soube instintivamente que já não voltaria a vê-lo. O plano inicial era formarmos um casal, mas recebemos algumas informações preocupantes e então decidimos viajar separados. Eu iria fazer uma cobertura inofensiva, sobre a cultura e hábitos do país, uma matéria de cariz mais feminino e menos político. Mal sabiam eles que eu era o backup do John. Todas as informações eram emitidas em duplicado. Ele ficava com uma cópia e eu com outra. No dia em que o levaram, eu estava mesmo quase a chegar ao pé dele. Consegui disfarçar a tempo e escapar aos olhos dos militares. Mas só soube o que lhe tinha acontecido mais de uma semana depois.
A partir daí jurei abraçar a sua missão de vida e continuar a dar voz aos mais desfavorecidos.
- Mas os planos saíram-te furados... - interrompeu a sua amiga Inês com um sorriso matreiro - ...e a "camisinha" também!
- Eu e o John éramos amantes. Isso nunca foi segredo para ninguém. Acho que fizemos faísca desde o primeiro momento em que nos vimos. Mas sermos pais não estava nos nossos planos de vida... Mais uma vez o destino mostrou-se matreiro. Ainda não tinha acabado de enterrar o John quando descobri que estava grávida.
- Caramba! Então e depois? - perguntou o empregado de mesa.
- Bem, depois de um momento de choque inicial, resolvi ter esta criança. Achei que era uma forma de conseguir prolongar a vida do John de alguma forma. O nosso filho é o seu maior legado, independentemente de todo o trabalho que fez ao longo da vida. Durante os primeiros anos foi preciso muita ajuda das minhas amigas para que pudesse continuar a ir de viagem. Nessas alturas o André tinha que ficar em casa de uma delas. Depois de uma boa dose de culpa inicial, descobri que ele de facto adorava estes "acampamentos" em casa das tias emprestadas. Isso fez com que me conseguisse concentrar efectivamente na cobertura das histórias que estava a fazer no momento.
Acho que no fundo devia mesmo agradecer ao Sr. Tavares por me ter proporcionado uma vida tão abençoada!
A gargalhada foi geral. 
- E o que lhe aconteceu? - quis saber a rapariga do jovem casal.
- Bem, confesso que lhe perdi o rasto, mas consta-se que terá ido para uma cidade do interior.
O sol não passava agora de uma ténue mancha alaranjada ao fundo do horizonte e a brisa que vinha do mar tinha arrefecido ligeiramente. Mas ali naquela esplanada permanecia uma espécie rara de calor humano, que passava das quatro velhas senhoras para a audiência em seu redor.
- E já me sabe dar a resposta à minha pergunta meu caro jovem? - perguntou Beatriz ao empregado de mesa.
- Não. Acho que vou mesmo precisar de mais algum tempo...
- Temos todo o tempo do mundo meu querido. E ainda lhe falta ouvir a minha história... - respondeu-lhe Inês com um sorriso misterioso.

(continua)
 

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Deixa bater o coração

Vagueio como um fantasma
na horda de nevoeiro que se ergue em meu redor
já não sei por onde vou mas sei aonde quero chegar
abro as asas e voo pelas cores do arco-íris
subo o primeiro degrau no escuro confiante de que lá chegarei
mesmo que não veja o caminho,
porque a vida acontece mesmo quando nós paramos para cheirar uma flor
porque nada pára e tudo muda mesmo quando o coração esmorece
e é chegada a hora de voar
de deixar bater o coração
de cheirar uma flor mesmo enquanto se caminha
porque o nevoeiro também se abre para nós passarmos
e se voarmos de asas bem abertas
não iremos tropeçar pelo caminho.